Quem quer devolver uma criança aí?


Estava lendo a Istoé desta semana, e me deparo com está matéria, onde várias pessoas devolvem seus filhos adotivos por inúmeros motivos, me identifiquei com está matéria, não por ter devolvido, mas por minha irmã que adotamos ter-nos devolvido para a não convivência dela em nosso meio.

No caso desta irmã, depois de 18 anos vivendo conosco acreditou que era melhor retornar as ruas, seguindo a trajetória de sua mãe, ainda mantemos contato, ainda tentamos cuidar, e influenciamos em muitas de suas decisões, mas amarrar um adulto em casa é cárcere privado, e contraria também seu desejo em viver “livre” segundo o que acredita significar tal palavra.

De toda matéria que já é estarrecedora lida uma pequena frase me chamou a atenção:

“As pessoas que procuram uma criança com a intenção de fazer

Caridade ou para salvar um casamento, por exemplo,

têm enormes chances de fracassar.”

 

Este CARIDADE me perturbou demais, porque é algo bem comum em meu dia a dia, a idéia totalmente errônea que as pessoas fazem desta palavra, demonstra o quão somos egoístas ainda para compreender qualquer coisa que envolva nosso semelhante, poucos são os que habitaram este planeta se colocando de verdade no lugar do próximo, mas temos visto o aparecimento de uma nova modalidade de “altruísta”, o de ocasião. Isto mesmo o que se comove e movido pela emoção se entrega a alguma obra caritativa, mas logo em seguida, some, desaparece, sem ao menos dar desculpas ou justificativas. Em Belo Horizonte tem um lar de acolhimento bem grande que aceita sim visitas mas não as incentiva justamente por pessoas que se aproximam de alguns residentes e os deixam quando começa a se construir um laço, e engraçado que estava em visita a um asilo em Santa Luzia, cidade vizinha a Belo Horizonte, onde após um almoço que promoviamos aos domingos, fomos nos despedir, e entre elas uma das idosas nos indagou: _ Pra que a promessa de voltar se sei que vão também nos abandonar? Ouvir isto foi como uma flecha perfurando minha carne, porque somos assim, vamos quando dá, afinal é voluntariado mesmo!

Veja o caso destas crianças, 3 em cada 10 são devolvidas, devido a falta de tolerância dos pais adotivos por atos inerentes a própria idade das crianças. É um numero assustador e pior devastador na vida desta criatura, que em formação se preenche de complexos e dúvidas. O desembargador Joel Dias, vai mais longe ao afirmar que, a desprezível prática da “devolução” de crianças começa a assumir contornos de normalidade, as justificativas são banais, para tais ações.

“O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito”

(Evangelho Segundo o Espiritismo)

 

“O Vento sopra onde quer

e ouves o seu ruído,

mas não sabes de onde vem

nem para onde vai.

Assim acontece com todo aquele

que nasceu do Espírito” – Jesus

(João Cp 3, vers.8 )

Somos todos adotados pois que ninguém é propriedade de ninguém. Nosso filho de hoje poderá ser nosso pai amanhã, assim estabelece a lei da Reencarnação. Muitos é claro crêem apenas na materialidade da carne, sendo assim tais afirmações acima, pouco ou quase nenhum impacto acarretam em suas vidas, mas será que os adultos não conseguem dissernir  uma criança de um cachorro por exemplo, o que particularmente já acho horrível, abandonar ao léu algo que está sob nosso cuidado, imagina uma criança? Outra justificativa muito usada é brigas constantes com o filho biológico, o que a meu ver, pode se tornar um incentivo ao individualismo egocêntrico, desculpe-me pelo pleonasmo, mas o fiz propositadamente, devido a gravidade da atitude, estamos lidando com um ser pensante que repercutirá adiante este sentimento de rejeição dupla, afinal ele foi entregue a adoção devido a um abandono anterior.


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Sobre Fábio Duarte

@FabioDuarte_BH
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9 respostas para Quem quer devolver uma criança aí?

  1. Rafael disse:

    Absurdo. Isso devia ser proibido. Não pode voltar atrás numa responsabilidade séria assim. Isso não se enquadra na lei de abandono de menor?

    Eu pretendo adotar futuramente. Sinceramente nunca nem pensei na possibilidade de devolução. Até porque pra mim não vai ter diferença nenhuma entre os filhos, sejam adotivos ou biológicos. Se eu falhar com ele eu falhei ué, mas pra que devolver? Vou continuar com ele, mesmo indo por caminhos errados, pois é parte da minha família.

  2. Estimado Irmão de crença e do mesmo Pai Criador, nosso Pai Zambi.
    Embora estejamos com nossas Caridades praticando o amor a tudo que o Pai nos emprestou para usufruirmos nesse plano; vemos que muitos de nossos Irmãos(ãs), ainda não iniciaram o caminho do resgate que todos nós estamos procurando seguir a fim de resgatar nossos erros, nossas omissões de vidas passadas.
    É muito triste sabermos, vermos tais absurdos, onde ainda impera o egoismo, a vaidade, a intriga, a luxúria, a inveja, a prepotência e a ganância como se tudo fosse terminar somente aqui.
    Só podemos pedir ao nossos Guias, Protetores, e principalmente ao Nosso Pai Oxalá que tenha misericórdia de todos, fazendo-os compreender que somos seus filhos e que jamais poderemos aceitar que a iniquidade a insensatez, venha prevalecer ( como agora) sobre o Amor Incondicional.
    Por isso que nos terreiros , nos Centros, nos Templos de Umbanda, devemos nós, sermos os baluartes da humildade, do carinho e do amor por todos que nos chegam precisando muitas das vezes apenas de uma palavra de consolo, de orientação.
    Que jamais sejamos envaidecidos em nossas funções de resgatar primeiramente de nossas falhas, a vaidade de entendermos que somos isso ou aquilo, Porque somente a misericórdia de Oxalá e de Zambi, é que nos permite por nossa livre escolha de podermos com nossa caridade quer material, mas principalmente espiritual, poder encaminhar todos nossos Irmãos(ãs) que ainda desconhecem seus caminhos e só conhecerão se nós tivermos compaixão, amor e respeito por cada um deles.
    Que as Luzes das Falanges do Amor, da Caridade e do Perdão, estejam sempre conosco para que possamos cada vez mais nos fortalecer e podermos pedir um MALEI para estes nossos Irmãos(ãs) que agem dessa forma e de tantas outras que nada condiz com o da Luz Espiritual.
    Antonio de Vô Cipriano.

  3. Blue disse:

    Excelente analize meu anjo..

  4. Peço licença para repassar um pedido que me foi enviado:

    SOCORRO À VIDA

    Amigos, queiram por caridade ajudar a quem necessite..
    Sou voluntária neste hospital e sei bem o magnífico trabalho realizado..
    Conto com todos…

    Hospital Espírita André Luiz

    ATENÇÃO!

    Estamos com vagas para quem necessite de tratamento psiquiátrico gratuito nas áereas: saúde mental, álcool e drogas.

    Os pacientes que necessitam podem entrar em contato nos telefones:

    3115-2640 / 3115-2641 (saúde mental)

    3115-2646 (dependência química)

    Att.

    Thais Oliveira
    Auxiliar de Marketing
    (31) 3115-2644
    http://www.heal.org.br

    Beijos de luz.

  5. Outra mensagem que acredito seja muito eficiente para refletirmos:
    QUANDO DEUS CRIOU AS MÃES
    Redação do Momento Espírita
    http://www.momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=3182&stat=0

    Diz uma lenda que o dia em que o bom Deus criou as mães, um mensageiro se acercou Dele e Lhe perguntou o porquê de tanto zelo com aquela criação.

    Em quê, afinal de contas, ela era tão especial?

    O bondoso e paciente Pai de todos nós lhe explicou que aquela mulher teria o papel de mãe, pelo que merecia especial cuidado.

    Ela deveria ter um beijo que tivesse o dom de curar qualquer coisa, desde leves machucados até namoro terminado.

    Deveria ser dotada de mãos hábeis e ligeiras que agissem depressa preparando o lanche do filho, enquanto mexesse nas panelas para que o almoço não queimasse.

    Que tivesse noções básicas de enfermagem e fosse catedrática em medicina da alma. Que aplicasse curativos nos ferimentos do corpo e colocasse bálsamo nas chagas da alma ferida e magoada.

    Mãos que soubessem acarinhar, mas que fossem firmes para transmitir segurança ao filho de passos vacilantes. Mãos que soubessem transformar um pedaço de tecido, quase insignificante, numa roupa especial para a festinha da escola.

    Por ser mãe deveria ser dotada de muitos pares de olhos. Um par para ver através de portas fechadas, para aqueles momentos em que se perguntasse o que é que as crianças estão tramando no quarto fechado.

    Outro par para ver o que não deveria, mas precisa saber e, naturalmente, olhos normais para fitar com doçura uma criança em apuros e lhe dizer: Eu te compreendo. Não tenhas medo. Eu te amo, mesmo sem dizer nenhuma palavra.

    O modelo de mãe deveria ser dotado ainda da capacidade de convencer uma criança de nove anos a tomar banho, uma de cinco a escovar os dentes e dormir, quando está na hora.

    Um modelo delicado, com certeza, mas resistente, capaz de resistir ao vendaval da adversidade e proteger os filhos.

    De superar a própria enfermidade em benefício dos seus amados e de alimentar uma família com o pão do amor.

    Uma mulher com capacidade de pensar e fazer acordos com as mais diversas faixas de idade.

    Uma mulher com capacidade de derramar lágrimas de saudade e de dor mas, ainda assim, insistir para que o filho parta em busca do que lhe constitua a felicidade ou signifique seu progresso maior.

    Uma mulher com lágrimas especiais para os dias da alegria e os da tristeza, para as horas de desapontamento e de solidão.

    Uma mulher de lábios ternos, que soubesse cantar canções de ninar para os bebês e tivesse sempre as palavras certas para o filho arrependido pelas tolices feitas.

    Lábios que soubessem falar de Deus, do Universo e do amor. Que cantassem poemas de exaltação à beleza da paisagem e aos encantos da vida.

    Uma mulher. Uma mãe.

    * * *

    Ser mãe é missão de graves responsabilidades e de subida honra. É gozar do privilégio de receber nos braços Espíritos do Senhor e conduzi-los ao bem.

    Enquanto haja mães na Terra, Deus estará abençoando o homem com a oportunidade de alcançar a meta da perfeição que lhe cabe, porque a mãe é a mão que conduz, o anjo que vela, a mulher que ora, na esperança de que os seus filhos alcancem felicidade e paz.

    Redação do Momento Espírita.

    Em 19.10.2011.

  6. Pensamento e Vida

    O homem pode ser considerado o pensamento que exterioriza, fomenta e nutre.
    Conforme a sua paisagem mental, a existência física será plasmada, face ao vigor da energia direcionada.

    O pensamento é a manifestação do anseio espiritual do ser, não uma elaboração cerebral do corpo.

    Sendo o Espírito o agente da vida, nos intrincados painéis da sua mente se originam as idéias, que se manifestam através dos impulsos cerebrais, cujos sensores captam a onda pensante e a transformam, dando-lhe a expressão e forma que revestem o conteúdo de que se faz portadora.

    O homem de bem, pensando corretamente como conseqüência da sua realidade interior, progride, adicionando forças à própria estrutura.

    A criatura de constituição moral frágil, por efeito das suas construções mentais infelizes, envolve-se nas teias dos pensamentos perturbadores e passa a estados tumultuados, doentios.

    Como resultado, conclui-se que o Espírito e não o corpo, é fraco ou forte, conforme o conteúdo dos pensamentos que elabora e a que se entrega.

    O pensamento é força.

    Por isso, atua de acordo com a direção, a intensidade e o significado próprios.

    A duração dele decorre da motivação que o constitui, estabelecendo a constância, a permanência e o direcionamento do que possui como emanação da aspiração íntima.

    O pensamento são os fenômenos cognitivos que procedem do ser real.

    Pensa no amor; e te sentirás afável.

    Cultiva a idéia do progresso, e terás estímulo para porfiar, logrando êxito nos empreendimentos.
    Sustenta a idéia do bem, e descobrirás quão ditoso és como fruto do anelo vitalizado.

    Se pensas no medo, ele assoma e te domina. Se dás atenção ao pessimismo, tornas-te incapaz de realizações ditosas.

    Se te preocupas com o mal, permanecerás cercado de temores e problemas.

    Se agasalhas as idéias enfermiças, perderás a dádiva da saúde.

    Tudo pode ser alterado sob a ação do pensamento.

    Vibração que sintoniza com ondas equivalentes, o teu pensamento é o gerador das tuas ações, e estas, as modeladoras da tua vida.

    Pensamento e vida, pois, são termos da equação existencial do ser humano.

    Pensando na necessidade de ascensão, os heróis, os cientistas, os mártires, os educadores e os santos edificaram o mundo melhor, que ainda não alcançou o seu ápice, porque tu e outros ainda não vos convencestes de pensar bem, agindo melhor; para conquistardes a vitória sobre as paixões, a dor e a infelicidade.

    Autor: Joanna de Ângelis
    Psicografia de Divaldo Franco. Do livro: Vida Feliz

  7. Porque Queres

    Que os Espíritos burlões e maus perturbam os homens, nisto comprazendo-se, não há dúvida.

    Lúcidos e folgazões, frívolos quão perversos, prosseguem, além do corpo, consoante foram antes da desencarnação.

    Invejando ou odiando aqueles que se esforçam e se esmeram para evoluir, intentam, por todos os meios possíveis, envolvê-los nas suas redes e tramas sórdidas.

    Inspiram, aturdem, criam situações embaraçosas, insistindo na manipulação dos seus objetivos infelizes, entregando-se a tais misteres nos quais se crêem realizados.

    Turbados e ignorantes em relação às Leis da Vida, supõem-se “braços da Justiça” ou livres para agir conforme as próprias aspirações.

    Interferem, desse modo, na conduta humana, os Espíritos zombeteiros e impiedosos, gerando sofrimentos.

    *

    Há, naturalmente, em todo intercâmbio, uma reciprocidade de sintonia.

    A lei de identidade moral e emocional responde pela comunhão de idéias entre aqueles que participam do mesmo conúbio.

    Mantenha o indivíduo um salutar padrão mental e comportamental superior, e, de forma alguma, os Espíritos, doentes e ignorantes, encontrarão campo para os seus desideratos perniciosos.

    Em toda área de comunicação a mensagem somente é recebida por quem lhe permanece na faixa de registro.

    Ante, portanto, a intermitente perseguição espiritual, defrontamos um agente atuante e um paciente agradavelmente receptivo.

    Isto, porém, ocorre contigo, porque o queres…

    *

    Ergue-te, mentalmente, acima das faixas vibratórias, nas quais se movimentam os Espíritos vulgares e impuros.

    Resguarda-te do pessimismo e da suspeita, que são fatores propiciatórios para o desequilíbrio.

    Consolida as disposições felizes, no íntimo, mentalizando o Bem e a ele entregando-te, a fim de pairares em clima superior de paz.

    Medita e ora, agindo corretamente, e, se algo, ainda assim, te acontecer, compreende que é um episódio fortuito da vida, que não te merecerá maior consideração.

    O processo, no qual te encontras engajado, é de evolução; resolve-te por avançar, sem as contramarchas tormentosas.

    Ascendendo psiquicamente e harmonizando-te emocionalmente, far-te-ás respeitado pelos Espíritos perturbadores que, mesmo intentando molestar-te, não encontrarão receptividade da tua parte.

    Recorda-te, por fim, de Jesus.

    Quem O encontrou, descobriu um tesouro luminoso, e, enriquecendo-se com Ele, jamais tropeçará em sombra e aflição.

    Impregna-te dEle, e sê feliz, sem mais controvérsia.

    Autor: Joanna de Ângelis
    Psicografia de Divaldo Franco. Do livro: Vigilância

  8. A ORDEM DOS FATORES (I)
    Helda Suriam Rozembergh
    (Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 365 de Junho de 2001)
    http://www.espirito.org.br/portal/artigos/correio-fraterno/a-ordem-dos-fatores-1.html

    …O aprimoramento do homem através de crenças espiritualistas só começou a emergir quando ele descobriu o fogo. Esta descoberta, que remonta ao homem primitivo das cavernas, permitiu que se acendesse também uma outra chama, a da divinização….
    Qual é a ordem exata dos três fatores que compõem a nossa Doutrina? Ciência, Filosofia e Religião, ou Filosofia, Religião e Ciência? Há ainda quem se refira a essa ordem colocando a Religião como primeiro fator, deixando a temática científica em último lugar dentro da formação do tríduo.

    Para que este assunto possa pelo menos ser analisado mais generalizadamente, necessário se torna a realização de um estudo mais suscinto de todos os seus componentes, a fim de que os pormenores envolvendo essa colocação possam ser interpretados de acordo com a lógica e proporcionalmente imparciais às suas naturais características, respeitadas as devidas conotações materiais, espirituais e demais compostos formatizadores.

    Através da ótica universalista, aquela que interpreta a realidade pura da Criação Divina e toda a sua Natureza, expressada amplamente pelos espíritos nos compêndios codificados e integrantes da Doutrina dos Espíritos, o que vem em primeiro na escala tridual é a Ciência, pois foi por meio dela que tudo começou, tendo se estabelecido o princípio inteligente ativo. A fase filosófica e religiosa é uma seqüência desse acontecimento primeiro. A Filosofia surge sempre após eventos científicos, como conseqüência de uma necessidade conciliadora e até disciplinadora de normas e condutas humanas em face de um fato inusitado, inovador, alternativo e que terá que ser absorvido pela sociedade. O papel fundamental da ciência filosófica nesse momento é o de facilitar o entendimento do ser humano, e, ao mesmo tempo, alertá-lo para as conseqüências dos erros que possam vir ser cometidos pelo mau uso dessa ciência colocada à disposição da humanidade para o seu progresso social, intelectual e moral. Fazendo uso indevido dela, fica o homem a mercê de suas Leis implacáveis, regidas pelos movimentos de Causa e Efeito; Ação e Reação, que enquadra todos os excessos do livre arbítrio e mantém sob rígido controle todo a imensa estrutura do Universo infinito, onde o amor é peça chave e principal, regendo o elo da Criação Suprema.

    Para uma apreciação mais suscinta, torna-se de suma importância a decorrência destes três módulos, Ciência, Filosofia e Religião através desta ordem já delineada pelo Professor de Lyon Allan Kardec, que, intuitivamente, resolveu dispor estas três palavras dentro da seqüência mencionada, que todos os confrades muito bem conhecem.
    CIÊNCIA.
    O aprimoramento do homem através de crenças espiritualistas só começou a emergir quando ele descobriu o fogo. Esta descoberta, que remonta ao homem primitivo das cavernas, permitiu que se acendesse também uma outra chama, a da divinização. O endeusamento do fogo foi o início de tudo, e com ele vieram numa outra escala de sucessão, novas descobertas científicas, que acabaram criando concomitantemente uma série de outras curiosidades introdutivas à ciência, como o olhar as estrelas, o Sol, a chuva, os raios com seus trovões e assim sucessivamente todo o grande e harmônico conjunto da natureza. A ciência, por assim dizer, foi a precursora da religiosidade e posteriormente da filosofia. Pode-se dizer que a descoberta pelo homem primitivo de que poderia obter grandes vantagens com o uso do fogo, influiu de tal modo no progresso da humanidade, que hoje figura ao lado de outros elementos tão importantes como a linguagem, a escrita e as primeiras noções sobre o cultivo da terra. Até nossos tempos atuais, o fogo ainda se constitui em objeto simbólico de adoração e muitas crenças religiosas, ditas até modernas, não concebem afastá-lo de seus cultos, simbolizando ele a matéria principal e inequívoca presença que faz o ser humano recordar o seu passado longínquo, aborda também o mistério das origens e o símbolo da sobrevivência, tanto da matéria como do espírito. Sem o fogo o homem não teria conseguido sobreviver às muitas transformações por que passou a Terra, como ondas de frio, chuvas e escuridão; com o fogo pôde haver aperfeiçoamento no sistema de preparação de alimentos, propiciando ao corpo uma melhor absorção e assepsia. Além do que, o fogo inspirou o homem a meditar, a transcendentalizar-se e a buscar resposta para certos fenômenos que ele começou a perceber acontecerem ao seu redor, como a sensibilidade, a intuição, e até a presença dos mortos, que ele passou a venerar e a respeitar. Enfim, o fogo é um fenômeno científico tão comum, que dificilmente existirá um ser humano que com ele não esteja familiarizado.

    As primeiras grandes contribuições documentadas sobre conhecimentos científicos datam dos gregos.

    Em conseqüência, os maiores filósofos da história também são gregos. Essas contribuições são, em sua maior parte, observações de natureza qualitativa, e as explicações para os fenômenos naturais verificados envolvem argumentos de natureza filosófica com muitas abordagens estético-matemática.

    A influência do pensamento grego influiu tanto, que ainda hoje, diante das complexidades dos estudos que estão sendo desenvolvidos, prefere-se aliar a ciência à filosofia, como forma de amenizar o que não se consegue explicar só pela ciência. É por isso que em muitas ocasiões, a filosofia tenta atropelar a ciência-espírita, forçando a sua secundarização dentro da Doutrina, visando até atender a interesses bizarros, como fortalecer a idéia de Jesus fluídico lançada por Roustaing e apoiada pela atual direção da FEB.

    A ORDEM DOS FATORES (II)
    Helda Suriam Rozembergh
    (Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 366 de Julho de 2001)

    Deus, desde a criação do Universo, tem deixado patente que a ciência é o único e principal meio pelo qual o homem conseguirá vê-Lo, senti-Lo e se aprimorar na senda da elevação espiritual

    Este método pouco evidente já não é aceito pelos cientistas e estudiosos modernos, que preferem transitar somente na esfera natural das evidências, sem se utilizar recursos pouco ortodoxos, em que as principais bases de pesquisas não se utilizam de meios sem características exatas, em conformidade até com os princípios adotados por Kardec em suas pesquisas. Essa é, inegavelmente, a melhor forma de se combater os embusteiros e de colocá-los diante da razão face a face.

    Deus, desde a criação do Universo, tem deixado patente que a ciência é o único e principal meio pelo qual o homem conseguirá vê-lo, senti-lo e se aprimorar na senda da elevação espiritual. Assim é que, para tanto, o homem, desde a descoberta do fogo, tem sido obsequiado com uma série enorme de evidências científicas, que são colocadas ao seu alcance através de acontecimentos tidos como acidentais ou ocasionais. Sem se fazer de rogado, o homem em muitas ocasiões primeiro usufrui da fenomenologia para depois tentar decifrar o fato. Usando ainda o fogo como exemplo, o primitivo homem ao se deparar com o fenômeno não quis saber como acontecia. Usou-o deliberadamente para diversos fins, para então, somente alguns milhões de anos após se interessar mais de perto sobre essa ocorrência e descobrir que o fogo é provocado pela combinação do oxigênio com o carbono e outros elementos contidos em substâncias orgânicas, de tal forma que produz calor, luz e via de regra, chama. Em síntese, é o processo mediante o qual a combinação de um elemento químico com outro produz calor, luminosidade e chama, e quando tais elementos se reduzem ao estado gasoso. Por este motivo, como já frisamos no início, o fogo é um fenômeno tão generalizado pelo Globo, que não existe ninguém que não esteja bem familiarizado com ele.

    E assim ocorre com inúmeros outros fenômenos colocados à disposição dos homens pela Providência Superior. Muitos já estão desvendados pela ciência e não constituem mais nenhum segredo ou mistério; outros ainda não conseguiram ser desvendados e se constituem em sérios quebra-cabeças aos pesquisadores. Mas, alguns dos mais importantes ao bem-estar e necessidade do homem já estão plenamente em evidência.

    A profunda e indiscutível Lei de Causa e Efeito não deixa nenhuma dúvida de que o nosso orbe foi criado por uma inteligência superior, isto é, por um ou mais cientistas com profundos conhecimentos de Física, assim como sobre todas as suas aplicabilidades Logísticas, Matemáticas, Astronômicas e Naturais. Se o Universo existe, logo tem uma Causa. A partir desse conceito científico-filosófico só não aceito pelos que não conseguem acreditar nem no “som” que ouvem ou na “água” que bebem é que fica claramente, precisamente e inequivocamente caracterizado que Deus existe. ELE é a Ação, os fatos em torno do homem, a partir do próprio homem é a Reação, Causa e Efeito, Ação e Reação, surgiram com Leis quando surgiu a primeira centelha componente da Criação Universal. A ciência materialista já não consegue mais distinguir a para realidade sem reconhecer este evento, pois o instinto é um sentimento metafísico que não permite ao homem continuar se enganando e conseqüentemente tentar explicar o inexplicável, pois o vazio sempre acaba surgindo como epílogo.

    A ciência moderna começa a deixar longe as explicações ingênuas e até desconexas sobre o surgimento do nosso Planeta e da vida que nele habita, em que há explicações afirmando ter Deus criado o mundo com um sopro, apontando o dedo e fazendo aparecer a água, terra e ar, além do fogo, ter trabalhado 6 dias e, para descansar, (sic!) repousou no sétimo dia (outro sic!). Depois criou a vida, com um homem chamado Adão. Deu-lhe uma companheira, forjando-a através de uma sua costela, Eva. Em seguida foram responsáveis pelo surgimento do pecado, tiveram filhos. Caim e Abel. O primeiro matou o segundo. Fugiu. Constituiu família e retornou ao regaço dos pais com os filhos. Só não se sabe, até em nossos tempos atuais, debalde todas as tentativas elucidativas, uma mais esdrúxula de que a outra, com quem Caim casou e teve filhos, sendo Adão e Eva os primatas da Terra. Aí as inúmeras mudanças nos textos bíblicos havidas durante os últimos séculos, sempre com intuito de encobrir os absurdos contidos na Bíblia, na medida em que o homem vai se aprimorando e descobrindo as fraudes adulterativas ocorridas e motivadas por interesses diversos.

    O avanço das ciências tem desmascarado e tornadas inúteis as explicações oferecidas sobre este e outros casos. Os dados da Física, por exemplo, são relacionados na observação do mundo exterior, entre os fenômenos de maior efervescência e facilidade de interpretação. A tentativa de estabelecer correlações entre as várias características de fenômenos naturais e de confirmar a existência dessas correlações tornou necessária a observação – controlada – , de modo a se poder variar qualquer dos parâmetros considerados importantes, deixando outros propositadamente invariáveis. Esta técnica foi amplamente utilizada por Allan Kardec em suas milhares de pesquisas. Suas experiências sempre se basearam em métodos experimentais e teóricos antes de serem expressadas em livros e na sua Revue Spirit. Aliás, o gigantesco trabalho científico do Professor de Lyon requereu uma grande necessidade de criação intuitiva, além de domínio dos instrumentos físicos e metafísicos. A par disso, observa- se que para a realização de sua obra, Kardec possuía, indiscutivelmente, alta engenhosidade, conhecimentos profundos de técnicas variadas, habilidade extraordinária sobre planejamento experimental e muita perseverança na superação de dificuldades, demonstrando em muitos de seus trabalhos de pesquisas, ter se utilizado de conhecimentos sobre Psicologia avançada.Allan Kardec, sem nenhuma sombra de dúvida, é um dos maiores cientistas surgidos na Terra nestes últimos séculos dos milênios recém-encerrados. É dever de todo espírita mantê-lo na memória como tal e lembrar constantemente à humanidade através de palestras, escritos e relatos breves que sua obra veio para ilustrar e elevar a moral do homem, além de livrá-lo da escravidão religiosa e dizimeira. A codificação de Kardec estabeleceu uma Ciência, uma Filosofia e uma Religião que surgiu para desmistificar as falsas crenças e mostrar ao Mundo que o homem não sobrevive sem bases instrutivas sólidas, que irão facilitar-lhe o acesso à compreensão real sobre a vida e a ensiná-lo a distinguir os diversos porquês que giram à sua volta e muitos só perceptíveis e entendíveis através de uma atualizada filosofia religiosa, e uma ciência soberana. Essa ciência que faculta ao homem o correto saber e o direito de transigir; de reconhecer, negar, discutir e discernir, sempre em respeito aos ensinos dos Espíritos Superiores, que respeitam as dúvidas em nome de um esclarecimento final, que possa espantar definitivamente as trevas.

    (“Não podendo nenhum homem criar o que a Natureza produz, a causa primária é, conseqüentemente, uma inteligência superior à humanidade”. – O Livro dos Espíritos)
    FILOSOFIA.
    O sentido próprio dessa palavra analisando a junção dos dois radicais (filos – amigo, e Sofia – sabedoria) é de que o filósofo não é detentor de todo o saber, mas um pretendente à sabedoria, já criada e naturalmente disponível, formatizada pela ciência.

    Pela Filosofia, pode o homem ter uma visão do mundo, uma concepção de vida, um melhor entendimento sobre tudo que o cerca, fazendo-o compreender e distinguir melhor a Lei de Amor, que soberanamente regula todo o Universo.

    No tempo dos sofistas e de Sócrates, a palavra filosofia era empregada para designar o cultivo sistemático de qualquer conhecimento teórico. O homem difere dos seres inferiores pela sua capacidade de criar contextos explicativos do meio e do Universo. Não vive, como os animais, no mesmo plano que as coisas. O mundo em que realiza sua existência é mais psíquico que material; mais sensitivo, mediúnico, metafísico e espiritual do que pode supor a nossa imaginação. Ou, como se afirma mais comumente, “do que pode supor a nossa vã filosofia”.

    A ORDEM DOS FATORES (III)
    Helda Suriam Rozembergh
    (Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 366 de Julho de 2001)

    A humanidade de tempos em tempos foi brindada pelo aparecimento de diversos líderes espirituais mas a visão unificada do Universo só mais tarde foi dada pela filosofia convencional, espremida pela Codificação consolidada de Kardec que mais do qualquer outro caminhou passo a passo ao lado da ciência.

    A Filosofia mostrou ao homem a necessidade de pensar. Ensinou-lhe, ou, mostrou-lhe o caminho do bem pensar: pensar com racionalidade e com apoio dos diferentes conhecimentos para facilitar-lhe a interpretação das ocorrências científicas. Esse homem, então, liberto do contato direto com a natureza, teve oportunidade de desenvolver sua inteligência e de criar confiadamente respostas, não mais baseadas na tradição mística ou nas forças divinas como causas eficientes e finais das coisas. Para as novas explicações, recorreu ele simplesmente às forças racionais de sua mente. Com isto pode desenvolver aptidões e propiciar um descortinamento do horizonte mais amplo e genuíno, em que as forças naturais passaram a ser explicadas de forma mais verdadeira e sem necessidade de volteios imprecisos e místicos, métodos usados sempre como forma de explicar o que é desconhecido, impreciso e improvável, porém fantasiado de misterioso com forma de atração imperfeita. Foi essa irracionalidade injusta que Kardec expurgou da sua filosofia, como forma de tornar o máximo possível compreensível a ciência de Jesus Cristo. Através desse trabalho, Allan Kardec mostrou ao homem a necessidade de praticar o ato da reflexão, como o de meditar ativamente e de usar a razão crítica face a face. Estava selada a codificação filosófica. A partir daí, os alicerces do mundo místico não parou mais de ruir. A consolidação da ciência Cristica é uma realidade intransigente, debalde os insanos esforços no sentido contrário como tentativa de deter esta transformação radical. Na fase mística e recheada de tabus, a razão estava de certo modo alienada, isto é, presa às forças ocultas e divinas, aos ditames do meio papal, ao animismo, ao fetichismo e outras formas mais grosseiras de manifestação. Somente quando se desprendeu de todos esses liames é que começou a exercitar-se livremente e pôde mostrar ao mundo, de forma científica, por meio de uma simples frase, o que é racional e como se deve proceder para reconhecer a fé: “A fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade”. Esta frase profunda de Kardec exprime todos os valores morais, científicos, filosóficos, culturais e religiosos.

    O homem, nas suas vivências e nas suas experiências fundamentais. Sofreu desde o inicio o impacto de diversos acontecimentos adversos. Sentiu-se imerso num mundo histórico, que o absorvia em sua comunidade política. Diante disto formulou respostas que não eram místicas, por serem racionais. Nesta fase nasceu a Filosofia Ética, pós Kardec, propensa a avaliar todos os quesitos com mais propriedade e ciência.
    RELIGIÃO.
    A religião é uma das mais antigas manifestações do ser humano. Sua essência básica consiste numa atitude de conciliação dos poderes superiores espirituais, que o homem julga capaz de dirigir e manipular, controlando o rumo da natureza e da vida humana. Com isto, estabeleceu o homem dois planos: o da natureza e o do sobrenatural, ou sagrado. O sagrado é, pois, objeto da Religião.

    A divinização enfeixa uma série de predicados conceituais, como sentimento, pensamento, ações e formas de adoração do divino. A finalidade disso tudo é tornar o divino propício ao homem ou à coletividade. Filosoficamente, esse Ser-divino foi transformado em oculto, proibido e restrito, e tudo o que lhe dizia respeito, era tabu, mistério, etc. O simples tornou-se gradativamente misterioso e absconso, como forma de interpretar mistificadamente a fragilidade do homem ante o poder da natureza científica. Diante dessa impotente realidade o divino fez-se, assim, sublimação desse poder. Os mortos conseqüentemente com o seu desaparecimento para sempre e sem explicação alguma, passaram a ser divinizados, principalmente quando apresentavam algum poder em vida, como reis, rainhas, papas e outros.

    Como dá para se perceber claramente, o homem, antes de Kardec, teve que percorrer tortuosos caminhos para compreender ou tentar decifrar alguma coisa sobre a espiritualidade, pois somente após a conclusão da Codificação efetuada por ele, Kardec, é que começou a fluir luz sobre os ensinos de Cristo. A miscigenação de crenças que até então existia, era, de certa forma, a visão fragmentária que o homem tinha do mundo e de suas misteriosas ciências controladas pela força da truculência violadora da inquisição papal, usurpadora dos ideais fraternos de Jesus. A visão unificada do Universo só mais tarde foi dada pela filosofia convencional, espremida pela Codificação consolidada de Kardec.

    Os primitivos poderes espirituais, como os primeiros deuses, caracterizaram- se segundo a feição própria de cada um dos povos e de cada religião. Daí, o motivo de haver tantas religiões quantos são os povos diferentes, em meios diversos, cada uma representada por uma tipologia filosófica diferente, pouco permitindo ao homem a tentativa de unificá-las. Somente após o lançamento das primeiras obras básicas de Allan Kardec é que pôde o homem começar a vislumbrar e entender o sentido exato dos ensinamentos de Jesus Cristo e assim começar a trilhar o caminho que o tornou livre das mistificações e dos tabus mentirosos e misteriosos.

    A ciência nunca parou de contribuir vigorosamente para o progresso do Espiritismo e vem revelando, periodicamente, novas formas de manifestações, que se constituem num manancial de fortalecimento da crença de que a morte não existe. Jesus informou ao homem essa transcendência e vem compelindo à ciência Espírita prová-la gradativamente e na medida do possível a todos os homens. A Transcomunicação Instrumental, que vem se aparelhando significativamente e já possue catalogado um número muito grande de ocorrências, parece ser o caminho escolhido pela Providência Superior para revelar de forma comprovada e material este enunciado de Cristo.
    Kardec revelou ao Mundo, através da Codificação, uma Religião, de uma ponto de vista evolutivo e fundamentalmente antropológico, sempre orientada por uma filosofia entrosada e antimistica, onde os valores são mostrados à luz de razão autêntica e desprovida de compromissos alheios com a verdade. Neste particular, sem demérito algum às outras crenças, podemos dividir a Filosofia em dois segmentos distintos: a de antes e a de pós Kardec. O trabalho do filho de Lyon é muito amplo e profundo para poder ser analisado apenas pelo prisma religioso, a desenvoltura de suas obras não permite que se leve em conta apenas o lado das transformações havidas na religião, onde o indefinível tornou-se definido e categórico e até então misteriosa e irracional morte deixou de ser um espectro tenebroso e medonho para ser afável circunstancialmente e absorvível dentro de seus meandros mais convincentes. O homem, elevado ao plano da razão face a face e conseqüentemente do raciocino desimpregnado do bolor clerical, que transformou o pragmatismo filosófico vigente e abriu os caminhos de uma conscientização mais elevada e nenhum pouco misteriosa, tem ao seu alcance e dispor, a Grande Ciência reveladora da verdade conforme prometido pelo Messias.

  9. O QUE SERIA PUREZA DOUTRINÁRIA SEGUNDO O ESPIRITISMO?

    Alexandre Fontes da Fonseca

    Dallas, Texas, USA

    afonseca@if.usp.br

    http://www.aeradoespirito.net/ArtigosAF/O_QUE_SER_PUREZA_DOUTRIN_AF.html

    Estudamos a questão sobre a Pureza Doutrinária segundo a própria Doutrina Espírita. Mostramos que a Pureza Doutrinária interpretada, como disse Jesus, em Espírito e Verdade, nada mais seria do que vivenciar o Espiritismo em toda e qualquer circunstância. Apresentamos alguns exemplos de atitudes do próprio Kardec perante algumas novidades de seu tempo, para ilustrar a pureza doutrinária segundo o ponto de vista do codificador. Algumas mensagens recebidas recentemente da Espiritualidade Superior são citadas em apoio às nossas conclusões.

    1. INTRODUÇÃO: A NECESSIDADE DE CLAREZA DE LINGUAGEM

    Um dos maiores cientistas que a humanidade conheceu, Werner Heisenberg (1901-1976), descobridor do princípio de incerteza e um dos criadores de uma formulação matricial da Mecânica Quântica, é dono da seguinte afirmativa (1,2): “(a respeito das filosofias de Democritus e Platão) (…) Pelo contrário, a vantagem principal que nós podemos deduzir a partir do progresso da ciência moderna é aprender o quão cautelosos nós temos que ser com a linguagem e com o significado das palavras.” E, falando a respeito das discussões entre Sócrates e seus opositores, Heisenberg diz que (2,3): “… Sócrates tinha consciência de quantos equívocos podiam ser engendrados pela falta de cuidado no uso da linguagem; o quão importante é usarem-se termos precisos e elucidarem-se conceitos antes de empregá-los.”

    A questão sobre a clareza da linguagem também foi analisada por Kardec. O ítem I da Introdução de O Livro dos Espíritos (4), a respeito dos vocábulos espírita e espiritismo, apresenta: “Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras.”(Grifos nossos). Os Espíritos superiores também se preocuparam com isso e, em resposta à questão número 28 de O Livro dos Espíritos (4), disseram que “As palavras pouco nos importam. Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.”(Grifos nossos). A parte destacada é válida não só para as questões espíritas mas para todo o tipo de conteúdo doutrinário, filosófico, científico e religioso.

    Nesse sentido, em busca da clareza da linguagem, vamos iniciar a presente análise pelo significado das palavras que compõem a expressão “Pureza Doutrinária” (PD para simplificar, daqui em diante).

    O termo pureza expressa, simplesmente, a idéia de “algo” que não apresenta mistura com outras “coisas”. Essa definição, porém, carece de sentido se não definirmos, também, o significado desse “algo” e das “coisas” que são diferentes do “algo”. Por exemplo, a água destilada pode ser considerada pura no sentido de que ela consiste apenas de um tipo de substância, sem a mistura ou presença de outras substâncias. Mas, a água potável também pode ser chamada de pura desde que definamos o grau de pureza da água em termos da qualidade para o consumo. A água potável não é pura se considerarmos o grau de pureza em termos das substâncias contidas nela, assim como a água destilada não seria pura no sentido da qualidade para o consumo. Portanto, o sentido da palavra pureza não pode ser levado em conta de forma dissociada do conceito próprio da “coisa” que se analisa.

    O conceito de pureza também precisa estar presente num contexto de aplicação. Por exemplo, ao questionarmos se a água que eu estou tomando é pura ou não, estamos introduzindo uma aplicação prática e, portanto, atribuindo um valor ou objetivo para o conceito de pureza. Isso significa que a análise quanto à “pureza” de alguma “coisa” não tem valor pela “coisa” em si (que é pura por natureza), mas sim quando nós a empregamos em nossas vidas. Precisamos ter consciência se aquilo que estamos utilizando é de fato o que se pensa que é.

    O termo doutrinária é um adjetivo que faz referência do “algo” a algum tipo de doutrina ou conjunto de princípios que definem ou regem uma determinada doutrina.

    Adotaremos essas definições em nossa análise por serem bastante acessíveis ao entendimento das pessoas em geral. A expressão pureza doutrinária, portanto, significa a característica de tudo que uma pessoa ou grupo de pessoas usa ou realiza de acordo com uma determinada doutrina. Como conseqüência direta, o significado de pureza doutrinária não pode ser obtido SEM CONHECER o que diz a doutrina em questão.

    2. O QUE ENSINA A DOUTRINA ESPÍRITA?

    Se PD depende do que diz a Doutrina Espírita, deduzimos de forma direta que PD nada mais é do que a vivência ou a prática dos ensinamentos contidos na Doutrina Espírita. Mas, então, o que ensina a Doutrina Espírita? Que exemplos, práticas e vivências o Espiritismo ensina? Busquemos NO ESPIRITISMO, a resposta. Segundo a questão número 625 de O Livro dos Espíritos (4):

    625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?

    Resposta – “Jesus.”

    Kardec: Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava. Quanto aos que, pretendendo instruir o homem na lei de Deus, o têm transviado, ensinando-lhes falsos princípios, isso aconteceu por haverem deixado que os dominassem sentimentos demasiado terrenos e por terem confundido as leis que regulam as condições da vida da alma, com as que regem a vida do corpo. Muitos hão apresentado como leis divinas simples leis humanas estatuídas para servir às paixões e dominar os homens.

    Concluímos daqui, que o Espiritismo ensina que nossas práticas e vivências devem estar de acordo com os ensinamentos de Jesus.

    O primeiro e mais importante ensinamento de Jesus está contido no Evangelho de Mateus, capítulo XXII, dentre os versículos 34 e 40: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. – Esse é o maior e primeiro mandamento. – E o segundo, que é semelhante ao primeiro: Amarás a teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a Lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” Vemos aqui que o Espiritismo ensina a agir em conformidade com a Lei de Amor, mandamento mais importante deixado e exemplificado por Jesus.

    Entretanto, de modo a percebermos que amar não significa “aceitar” tudo o que nos chega, vejamos uma outra recomendação de Jesus, (MATEUS 5:37) : “Mas seja o vosso falar: sim, sim; não não”. Para comentar esta passagem chamamos o espírito Emmanuel, em psicografia de Francisco C. Xavier (5): “O ‘sim’ pode ser muito agradável em todas as situações, todavia, o ‘não’, em determinados setores da luta humana, é mais construtivo. Satisfazer a todas as requisições do caminho é perder tempo e, por vezes, a própria vida. Tanto quanto o ‘sim’ deve ser pronunciado sem incenso bajulatório, o ‘não’ deve ser dito sem aspereza. Muita vez, é preciso contrariar para que o auxílio legítimo se não perca; urge reconhecer, porém, que a negativa salutar jamais perturba. O que dilacera é o tom contundente no qual é vazada.”(Grifos nossos). A partir desta recomendação de Jesus e do comentário de Emmanuel fica claro para nós que o Espiritismo não ensina a concordar sempre com tudo e com todos e que em nome do Amor e da Fraternidade podemos sim discordar. Aliás, Bezerra de Menezes, recentemente, disse (6): “A vós, sob inspiração dos Guias Espirituais do Movimento Espírita na Terra, está destinada a tarefa infatigável de porfiar no bem, de exercitar a compaixão e a caridade, mas não conivir, em nome da tolerância, com o erro nem com o crime.”(Grifos nossos). Porém, isso tem que ser feito em tom de respeito, de forma salutar e não em “tom contundente” de quem se crê detentor de toda a Verdade. Isso significa que sempre deve haver diálogo e respeito entre aquele que discorda e aquele que propõe algo diferente.

    3. A NECESSIDADE DO ESPIRITISMO

    Uma questão importantíssima é saber quais os benefícios do Espiritismo para a humanidade. Que tipo de problemas o Espiritismo pode evitar e que tipo de contribuição o Espiritismo pode oferecer ao progresso da humanidade? Responderemos a essas questões utilizando um outro ensinamento de Jesus (JOÃO 8:32): “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”. É importante, também, rever alguns trechos do item II da Introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo (7), sobre a “Autoridade da Doutrina Espírita”:

    (9º. Parágrafo) Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares. (Grifos em itálico originais).

    (2ª. frase, 13º. Parágrafo) (Sobre receber comunicações de muitos centros espíritas sérios) Essa observação é que nos tem guiado até hoje e é a que nos guiará em novos campos que o Espiritismo terá de explorar.

    (14º. Parágrafo) Essa verificação universal constitui uma garantia para a unidade futura do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. Aí é que, no porvir, se encontrará o critério da verdade. (Grifos nossos).

    (16º. Parágrafo) O princípio da concordância é também uma garantia contra as alterações que poderiam sujeitar o Espiritismo às seitas que se propusessem apoderar-se dele em proveito próprio e acomodá-lo a vontade.

    (19º. Parágrafo) Daí a necessidade da maior prudência em dar-lhes publicidade; e, caso se julgue conveniente publicá-las, importa não as apresentar senão como opiniões individuais, mais ou menos prováveis, porém, carecendo sempre de confirmação. Essa confirmação é que se precisa aguardar, antes de apresentar um princípio como verdade absoluta, a menos que se queira ser acusado de leviandade ou de credulidade irrefletida. (Grifos nossos)

    Primeiro Jesus diz que devemos buscar a Verdade porque ela nos libertará, e em seguida vemos que Kardec demonstra que o princípio da concordância universal entre os espíritos é uma garantia para nos encaminharmos à Verdade. Aqui reside uma das coisas mais importantes do Espiritismo: sua divulgação! Notemos que a atitude de prudência em divulgar idéias que não tenham sido obtidas a partir do critério da concordância universal dos espíritos é defendida pelo codificador com o apoio dos Espíritos superiores. Notemos, também, que Kardec afirma que devemos nos precaver de sermos “acusados de leviandade ou de credulidade irrefletida”. Ninguém diz que Kardec está sendo indelicado, anti-fraterno ou faltando com a tolerância quando usa essas palavras. É preciso ficar claro que a prudência não é falta de fraternidade ou tolerância, mas sim respeito àquele que busca a casa espírita para conhecer o Espiritismo.

    Para não esquecermos nenhum detalhe, vejamos o que está contido no item 9 do Cap. XV do Evangelho Segundo o Espiritismo (7):

    Fora da verdade não há salvação equivaleria ao Fora da Igreja não há salvação e seria igualmente exclusivo, porquanto nenhuma seita existe que não pretenda ter o privilégio da verdade. (…) (o Espiritismo) não diz: Fora do Espiritismo não há salvação; e, como não pretende ensinar ainda toda a verdade, também não diz: Fora da verdade não há salvação, pois que esta máxima separaria em lugar de unir e perpetuaria os antagonismos. (Os grifos em negrito são nossos).

    O Espiritismo não defende a idéia de que o Espiritismo possui o monopólio da Verdade. O nosso dizer deve ser “sim sim, não não”, como Jesus ensinou, mas não podemos defender a idéia de que não existem outros caminhos para se chegar à verdade. O Espiritismo diz respeito apenas ao Movimento Espírita. O Espiritismo não pode afirmar nada sobre as outras filosofias, exceto o fato delas serem outras. O Espiritismo NÃO condena o estudo particular de qualquer outra doutrina, mas orienta que estudos são mais apropriados a determinados fins dentro da Casa ou Centro Espírita. Em nome do Espiritismo não se pode expulsar ou criticar o irmão estudioso e interessado nos conceitos de outras doutrinas. Porém, o Espiritismo ensina como discernir a respeito da utilização de idéias e conceitos de outras doutrinas ou filosofias nas atividades espíritas para, assim, não correr o risco dessas idéias desviarem os participantes dos principais objetivos do Espiritismo. Em apoio a isso, vamos transcrever o que os Espíritos ensinaram na questão 628 de O Livro dos Espíritos (4):

    628. Por que a verdade não foi sempre posta ao alcance de toda gente?

    Resposta – “Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado. Jamais permitiu Deus que o homem recebesse comunicações tão completas e instrutivas como as que hoje lhe são dadas. Havia, como sabeis, na Antigüidade alguns indivíduos possuidores do que eles próprios consideravam uma ciência sagrada e da qual faziam mistério para os que, aos seus olhos, eram tidos por profanos. Pelo que conheceis das leis que regem estes fenômenos, deveis compreender que esses indivíduos apenas recebiam algumas verdades esparsas, dentro de um conjunto equívoco e, na maioria dos casos, emblemático. Entretanto, para o estudioso, não há nenhum sistema antigo de filosofia, nenhuma tradição, nenhuma religião, que seja desprezível, pois em tudo há germens de grandes verdades que, se bem pareçam contraditórias entre si, dispersas que se acham em meio de acessórios sem fundamento, facilmente coordenáveis se vos apresentam, graças à explicação que o Espiritismo dá de uma imensidade de coisas que até agora se vos afiguraram sem razão alguma e cuja realidade está hoje irrecusavelmente demonstrada. Não desprezeis, portanto, os objetos de estudo que esses materiais oferecem. Ricos eles são de tais objetos e podem contribuir grandemente para vossa instrução.” (Grifos nossos)

    Notem que os bons Espíritos ao mesmo tempo que afirmam que as diferentes doutrinas espiritualistas possuem “acessórios sem fundamento” que as fazem parecer “contraditórias entre si”, dizem que o estudo delas não deve ser desprezado pois elas também contém “verdades esparsas”. Mas, isso não significa que devemos importar práticas de outras doutrinas já que, como os bons Espíritos também disseram na mesma questão acima, que “a ciência sagrada (…) dentro de um conjunto equívoco e, (…), emblemático …”, e que esses sistemas das filosofias antigas “(…) facilmente coordenáveis se vos apresentam, graças à explicação que o Espiritismo dá (…)”. Se o Espiritismo, como eles disseram, contém comunicações mais “completas e instrutivas” qual a vantagem de utilizarmos conceitos e práticas oriundas de outras doutrinas espiritualistas que se acham dispersos e “em meio de acessórios sem fundamento”? Por acaso um médico opera um paciente utilizando os procedimentos do Séc XV só porque algumas verdades eram conhecidas na época?

    4. O QUE SERIA PUREZA DOUTRINÁRIA SEGUNDO O ESPIRITISMO?

    Podemos, agora, responder à questão apresentada no título deste artigo. Pureza Doutrinária, dentro do Movimento Espírita, nada mais é do que agir de acordo como ensina o Espiritismo.

    Não faz sentido verificar se a Doutrina Espírita é pura pois isso é redundante. Não há necessidade de defender algo que já é bem constituído. PD não tem, portanto, efeito sobre a Doutrina Espírita em si. PD se aplica ao Movimento Espírita porque este representa a atitude das pessoas que o constituem e que precisam ter consciência se aquilo que estudam, praticam e vivenciam reflete os ensinamentos da Doutrina Espírita. Mas, como vimos nas sessões anteriores, o Espiritismo não condena estudos e práticas só por serem diferentes, mas pede discernimento e estudo para que tenhamos consciência do que estamos fazemos. Diante de novidades, é importante primeiro investigá-las de modo cuidadoso e profundo para não corrermos o risco de assimilarmos algo que não corresponda à verdade.

    Apesar disso parecer simples, a falta da clareza da linguagem (vide Introdução) levou a entendimentos equivocados a respeito da PD. Em decorrência disso, críticas se levantam à PD e, diante do exposto até aqui, a PD é, justamente, a solução dos questionamentos dos que a defendem e a combatem.

    A explicação para os equívocos realizados em nome da PD pode ser deduzida do que o Espiritismo ensina. No item 5 do Cap. VI do Evangelho Segundo o Espiritismo (7), o Espírito de Verdade assim se expressa com relação ao Cristianismo: “No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram.” Da mesma forma, são de origem humana os erros que se têm cometido em nome da PD. O erro não está em defender PD pois PD significa agir em conformidade com os ensinamentos espíritas que, por sua vez, são a expressão mais pura do Evangelho. Os companheiros que defendem a PD podem agir em desacordo com o seu real significado, e os companheiros que consideram a PD um excesso de zelo prejudicial ao desenvolvimento do Movimento Espírita, assim o pensam em razão de equívocos e, talvez, abusos realizados em nome da PD. Como o Espiritismo nos ensina que não devemos julgar, em nome da PD também não se pode julgar. A Bondade Divina nos situou nas posições em que melhor podemos progredir e o erro, muitas vezes, faz parte do processo, não nos cabendo o julgamento do próximo. O que nos cabe é a defesa do que nós entendemos ser o correto, de acordo com o Espiritismo, e por isso devemos defender uma PD com amor, com vivência real do Evangelho à luz do Espiritismo.

    5. EXEMPLOS DE KARDEC

    Nessa seção apresentaremos dois exemplos significativos de Kardec sobre sua postura doutrinária, como espírita, perante algumas novidades. Esses exemplos servem como referência de PD segundo o Kardec.

    Primeiro, vamos citar a reação de Kardec ao ler as obras de Roustaing, Os Quatro Evangelhos. Kardec, em matéria na Revista Espírita de Junho de 18668, assim se expressa quanto à sua apreciação geral: “É um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e o dos médiuns.” Esse comentário é importante pois mostra a imparcialidade de Kardec frente às novidades, ao mesmo tempo que revela o exemplo de leitura crítica sem desrespeito.

    Adiante, ele demonstra sua prudência dizendo que: “Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa caminhada sobre o desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, às suas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de sancioná-las ou de contradizê-las. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais aos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todos os casos, têm necessidade da sanção do controle universal, e até mais ampla confirmação não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita.” Esse comentário é um exemplo de aplicação da PD perante o novo assunto: ao invés de lançar anátema, Kardec se abstém de aprovar ou não, aguardando o desenvolvimento futuro em que os Espíritos poderiam confirmar ou não o conteúdo das obras de Roustaing.

    Kardec esclarece que se de um lado Os Quatro Evangelhos não se afastam dos princípios contidos em O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, diferente se dá com as aplicações desses princípios a certos fatos. Daí Kardec cita o detalhe a respeito da proposta, contida na obra de Roustaing, de que o corpo de Jesus não era de carne, mas sim fluídico. Kardec, sobre isso, então, diz: “Sem dúvida, não há aí nada de materialmente impossível para quem conhece as propriedades do envoltório perispiritual; sem nos pronunciar pró ou contra essa teoria diremos que ela é ao menos hipotética, e que, se um dia ela fosse reconhecida errada, a base sendo falsa, o edifício desmoronaria.” Notem a honestidade de Kardec em reconhecer que a proposta não é de todo impossível. Mas, ao mesmo tempo, reconhece a importância dessa questão para todo um conjunto de explicações a respeito dos fenômenos realizados por Jesus. Apesar de conhecer objeções a essa proposta, e de considerar que ela é desnecessária para explicar os fatos realizados por Jesus, Kardec não a prejulga ou condena e propõe que se aguarde o futuro. Além disso, ele deixa claro que a obra contém outros pontos bons e que pode ser “consultada proveitosamente pelo Espíritas sérios.”

    Passados dois anos, Kardec publica A Gênese (9) (1868) que retoma o assunto, agora, com mais estudo e conhecimento sobre a questão. No Cap. XV, itens de 64 a 67, sob o título “Desaparecimento do Corpo de Jesus”, Kardec mostra que além de desnecessária, a hipótese do corpo fluídico de Jesus não condiz nem com os fatos nem com a análise moral da situação. Reproduziremos apenas a conclusão de Kardec, ao final do item 66 do referido capítulo: “Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência.”

    O segundo exemplo que queremos mencionar, decorre apenas de um comentário de Kardec sobre a proposta de alguns médicos de sua época de que a Homeopatia poderia curar males morais. Kardec, no artigo do mês de Março de 1867 da Revista Espírita expõe longo argumento sobre o assunto. Novamente, em resposta a uma carta de um médico homeopata, no número de Dezembro de 1867, Kardec novamente expõe seu argumento. Entretanto, ao final da matéria de Dezembro de 1867, Kardec diz que “Como em tudo, os fatos são mais concludentes do que as teorias, e são eles, em definitivo, que confirmam ou derrubam estas últimas, desejamos ardentemente que o Sr. o doutor Grégory publique um tratado especial prático da homeopatia aplicada ao tratamento das moléstias morais, a fim de que a experiência possa se generalizar e decidir a questão.”(Grifos nossos). Sabemos que nos dias de hoje, diversos grupos espíritas realizam a prática de terapias alternativas dentro do centro espírita. Realmente, o Espiritismo não trata de terapias alternativas, nem mesmo de Homeopatia, mas o comentário de Kardec acima contém implicitamente uma orientação segura e de acordo com o caráter progressivo do Espiritismo, para quem deseja se dedicar à prática de tais terapias dentro do Movimento Espírita. O destaque em negrito resume a orientação de Kardec: ao invés de simplesmente usar tais terapias alternativas, aqueles que se interessam por elas devem buscar realizar trabalhos sérios de pesquisa, buscando “publicar tratados práticos” sobre as mesmas, que possam ser analisadas por outros estudiosos permitindo que a “experiência possa se generalizar e decidir” sobre sua validade como prática dentro do contexto das atividades espíritas. Acreditamos que tem faltado ao Movimento Espírita um pouco do espírito investigativo de Kardec e que se manifesta claramente na colocação acima. Se ele fosse contrário à pesquisa, ele não diria que os fatos é que poderiam decidir sobre a validade de uma questão.

    No caso específico da Homeopatia, cumpre esclarecer que Kardec apenas questionou a idéia dela poder curar males morais, o que estaria em desacordo com a mensagem do Evangelho de que somos responsáveis pelos nossos atos. Isso não significa que, em si, a Homeopatia não pudesse ser usada pelos bons Espíritos no trabalho de ajuda à saúde das pessoas. A Homeopatia é um tipo de terapia alternativa à alopatia que é aceita pelos conselhos de medicina no Brasil e no mundo, tem sido pesquisada de modo sério perante as ciências ortodoxas, e tem o apoio da Espiritualidade através do fato de que muitos centros espíritas contam com trabalhos de receituário mediúnico. Acreditamos que a generalização do uso de outras terapias ou práticas dentro do Movimento Espírita requer semelhante trabalho de pesquisa (material e espiritual), para que elas não se tornem práticas místicas, isto é, feitas sem saber porque, como e para que.

    Entretanto, diante do fato de que poucas pessoas conhecem os requisitos de um trabalho de pesquisa mais profundo (Kardec os conhecia muito bem) sugerimos àqueles que se interessam pelas terapias alternativas, que contactem pesquisadores profissionais, que sejam espíritas, e que possam orientar um trabalho de pesquisa genuíno e que possa gerar os resultados de valor científico. Quem quiser conhecer uma introdução ao trabalho de pesquisa científica, pode consultar as aulas de Ciência e Espiritismo (10) publicadas entre os Boletins do GEAE de 483 a 500, especialmente as aulas de número 14 a 18. A realização desse tipo de trabalho investigativo (que enfatizamos ter sido um dos fortes exemplos de Kardec perante as novidades) não só estaria em sintonia com o Espiritismo, mas removeria a capa de misticismo em que muitas dessas práticas se envolvem. E, se ao final de vários trabalhos de pesquisa, se concluir que determinadas terapias não são necessárias dentro do contexto de atividades espíritas, não há nada do que se envergonhar em reconhecer e modificar atitudes.

    Ainda servem de exemplos interessantes, a postura prudente e imparcial de Kardec com relação ao surgimento de romances espíritas (11,12) e o artigo de Kardec “Espiritismo Independente”, no número de Abril de 1866 da Revista Espírita.

    6. CONCLUSÃO

    Para ajudar no entendimento do que seria pureza doutrinária, segundo o próprio Espiritismo, utilizamos, ao longo do texto, a expressão “o Espiritismo” com destaque em negrito e no formato itálico. Isso foi feito com o propósito de realizar o seguinte teste. O significado de pureza doutrinária pode ser entendido bastando substituir a expressão “o Espiritismo”, pela expressão “pureza doutrinária”. Esse seria, ao nosso ver, a melhor forma de entendermos o significado de pureza doutrinária segundo o Espiritismo.

    De modo a percebermos a preocupação da Espiritualidade com a fidelidade doutrinária, transcrevemos abaixo uma recomendação de Bezerra de Menezes (6): “Enfrentais no momento dificuldades que se multiplicam. Tendes pela frente desafios inumeráveis. Lobos vestem-se de ovelhas para ameaçarem o rebanho. Permanecei vigilantes como estais demonstrando, a fim de passarmos às gerações do futuro a Doutrina dos Espíritos na pulcritude e nobreza com que a recebemos de Allan Kardec e dos Mensageiros que a compuseram.” (Grifos nossos). Outras mensagens recentes da espiritualidade tem chamado a atenção para o cuidado com o Espiritismo como, por exemplo, a recente mensagem chamando os Espíritas à “fidelidade aos projetos do Espírito de Verdade” (13).

    Se PD significa agir de acordo com o Evangelho, vamos incentivar a PD em nossas atividades espíritas. Os equívocos em torno do conceito de PD podem ser resumidos em duas palavras: orgulho e egoísmo. Orgulho e egoísmo estão por detrás das afirmativas em tom “rude”, do desrespeito e desprezo por quem pensa diferente e, também, ocorre com quem recebe críticas contrárias às suas idéias e não se dispõe a meditar sobre elas e discuti-las de modo saudável. Propomos a criação de uma campanha pela DEFESA DA PUREZA DOUTRINÁRIA COM AMOR (isso é redundante, mas ajuda a entender o objetivo principal). Não precisamos abrir mão da Doutrina Espírita para sermos fraternos uns com os outros e nos mantermos cada vez mais unidos.

    O autor agradece aos Profª. Dra. Maristela Olzon D. de Souza, Prof. Dr. Sylvio D. de Souza, e ao Amigo Carlos Iglesias (Editor do GEAE) pela leitura crítica deste trabalho e por valiosas discussões e sugestões.

    Referências

    [1] Frase original, em inglês, obtida do capítulo IV da referência [2]: “On the contrary, the chief profit we can derive in these problems from the progress of modern science is to learn how cautious we have to be with language and with the meaning of the words.”

    [2] K. Wilber, Quantum Questions, Shambhala Publications, Boston, (2001).

    [3] Frase original, em inglês, obtida do capítulo IV da referência [2]: “… Socrates was aware of how many misunderstandings can be engendered by a careless use of language, how important it is to use precise terms and to elucidate concepts before employing them.”

    [4] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição, (1995).

    [5] Emmanuel, Psicografia de Francisco C. Xavier, Pão Nosso, Cap. 80, Editora FEB, 18a. Edição (1999).

    [6] B. de Menezes, Psicofonia de Divaldo P. Franco, Reformador, Dezembro pp. 446-447 (2005).

    [7] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112a. Edição (1996).

    [8] A. Kardec, Os Evangelhos Explicados, Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Junho p. 19 (1866).

    [9] A. Kardec, A Gênese, Editora FEB, 36ª Edição (1995).

    [10] A. F. Da Fonseca, Aulas de Ciência e Espiritismo, Boletin do GEAE ns. 483 a 500 (2004-2005). Internet:

    http://www.geae.inf.br/pt/boletins/colecao.php

    [11] A. Kardec, Os Romances Espíritas, Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Dezembro p. 3 (1865).

    [12] A. Kardec, Notícias Bibliográficas, Espírita, Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Março p. 17 (1866).

    [13] Camilo, Psicografia de Raul Teixeira, Reformador, Janeiro pp. 30-31 (2006).

    Publicado no Boletim do GEAE n. 529, 15 de Setembro de 2007

    http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae529.html

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