Ética e Moral – Para a Cultura da Paz

 

Por: ADALGIZA CAMPOS BALIEIRO

 

A convivência ética é um ato de opção, de liberdade e, conseqüentemente, de responsabilidade.

Construímos espaços de convivência ética quando desejamos compartilhar experiências e assumimos as responsabilidades desse compartilhamento. Esta maneira de conviver não pode ser imposta por atos de convencimento racional, pois o espaço ético não se apóia na razão ou em raciocínios. Muitas vezes, ficamos confusos quando falamos de ética e moral, chegando mesmo, a compreendê-las num mesmo espaço conceitual. Embora a diferença entre ambas seja tênue, são significativamente diferentes seus âmbitos operacionais.

Quando nos referimos ao comportamento imoral, geralmente nos referimos ao não atendimento às regras, leis ou normas, acordadas pelo senso comum, que orientam as relações entre pessoas de um determinado grupo. Nesse caso, a referência se deve ao fato de a pessoa não obedecer às leis ou não cumpri-las, podendo, portanto, ser punida por elas. O que se deseja neste âmbito de relacionamentos é a observância da lei para a garantia da ordem. O desrespeito à lei ou normas preestabelecidas não pode ser aceito, daí a pena.

Neste espaço relacional a “pessoa” não aparece. Aparece sua ação, que poderá ser punida, se representar ameaça ao grupo. Executamos a lei para punir o seu transgressor. O cumprimento da lei isenta-nos da responsabilidade, do prejuízo que podemos causar ao outro quando a aplicamos, afinal estamos apenas “cumprindo a lei”.

Quando punimos alguém pela não observância à lei, a pessoa não é, necessariamente, responsabilizada pelo que fez e a sua aplicação serve apenas para devolver, ao grupo, a tranqüilidade necessária a prosseguir vivendo em aparente segurança. Esta maneira de conduzir-se na vida impede o aprendizado, perpetuando as relações de transgressões que, normalmente, se consolidam e evoluem para a agressão ostensiva.

Observamos que, neste âmbito relacional, as normas e leis que oferecem sustentação à vida do grupo estão acima das pessoas. As explicações dadas aos nossos atos são cerzidas em coerências lógicas de pronta aceitação. Esta forma de conviver favorece a impunidade e fragiliza, consideravelmente, as possibilidades de aprendizado. Esse procedimento, via de regra, mantém a pessoa num plano de ação inconsciente, pois a separa de seu fazer, o que impede o surgimento do espaço reflexivo, já que seu procedimento é determinado pela lei, o que a mantém confortavelmente irresponsável pelo que faz.

As regras nos protegem e dar-lhes cumprimento é a nossa segurança. Proteção e segurança,condições mínimas para nossa sobrevivência. Este tipo de comportamento leva à obediência cega e, conseqüentemente, à anulação da pessoa. As conseqüências dessa forma de proceder diluem-se no coletivo e, na maioria das vezes, a pessoa, sequer, toma conhecimento das suas conseqüências e põe-se a falar de “boas ações”, tornandose, sistematicamente, “moralista”, ou seja, dá-se o direito de julgar os outros sem qualquer tipo de envolvimento com eles.A moral é concebida, assim, como regras consensuais de conduta, definidas a priori, conservadas transgeracionalmente, o que lhes confere grande estabilidade. Essas regras variam em função de cada grupo, pois expressam as culturas, ou seja, usos e costumes de cada povo, garantindo-lhes, por seu caráter conservador, a estabilidade necessária para a vida do grupo.

Podemos conceber, num mesmo espaço cultural, diferentes arranjos que orientam as relações entre as pessoas. Nesse sentido, encontramos a moral familiar, a moral religiosa, a profissional, entre outras, todas elas válidas e importantes na sustentação dos diferentes modos de convivência que identificam cada cultura.Nenhum deles é mais certo que o outro. Moisés, por exemplo, editou um código moral para orientar e garantir a conservação de uma maneira desejável de convivência para o seu povo. Naquela oportunidade, a aceitação e cumprimento das leis residiam no fato de elas terem sido concebidas e enviadas por Deus, ou seja, por alguém cuja autoridade jamais seria questionada, o que reforçava o poder de Moisés sobre o povo, imposto pelo medo das penalidades ao não-cumprimento da lei. Ainda hoje, já na pós-modernidade, embora dissimulados, podemos identificar procedimentos da mesma natureza.

Ao nos referirmos ao comportamento ético-moral de um povo, provavelmente conotamos, com essa expressão, espaços relacionais onde regras de bem viver construíram espaços de convivência diferentes daqueles regidos por leis e normas preestabelecidas.

Intuímos que a simples agregação do termo “ético” à “moral” sugere um outro sentido, uma diferença nas relações por ele conotadas. Talvez a “ética” sempre tenha estado presente nas relações, aparecendo acanhadamente aqui e ali, no entanto, pode não ter sido sentida como necessária. Desde que se instaurou a “idade da razão”, a ética foi deixada de lado, pois tínhamos a orientar nossa conduta a infalibilidade da lógica racional e da argumentação por ela sustentada. Mas, essa época acabou ou está acabando.

Há dois mil anos, Jesus, cuja ação buscava construir novos alicerces para a instalação de um reino de amor, de fraternidade e, basicamente, de igualdade, entre tantas outras assertivas, proclamava sua máxima “ama teu próximo como a ti mesmo” e com ela trouxe à cena o parceiro olvidado, aquele a quem devemos o conhecimento de nós mesmos, aquele de que a mente egoísta julgou não necessitar.

Organizações eminentemente políticas apropriaram-se precocemente desse novo espaço de convivência sustentado pela ética emergente, desviando o rumo de nossa possível história, e vejam no que deu. Estamos quase morrendo de tanto nos matar.

Este fato não é trivial. Todavia, o que nos trouxe Jesus que, de repente, dividiu a História em antes e depois dele ?

Jesus instituiu “o outro” nas relações humanas. E, quando aparece “o outro”, com os mesmos direitos e deveres de qualquer um, surge o espaço ético nas relações.

A ética não se sustenta por leis impostas, mas simplesmente pela aceitação do outro em sua plena legitimidade. Esse fato desencadeia uma dinâmica corporal que reconfigura nosso âmbito relacional, evidenciando nossa natureza emocional.

Porquanto tenhamos sido ensinados, ao longo de nossas vidas, que somos seres racionais, temos dificuldade em assumir nossas emoções, desconhecendo o fato de que são elas as responsáveis pela imensa gama de variações de nossa conduta.
Nós, seres humanos, não somos só seres racionais, somos, irredutivelmente, seres emocionais. Nossa conduta se explica não pela razão, mas pela emoção. A emoção que nos constitui, biologicamente, é o amor, concebido como aceitação e respeito, que aprendemos a ter por nós mesmos, e que, ao longo de nossas experiências, transferimos ao outro, o qual é o nosso “próximo” a quem deve devemos amar.

Esse é o maior de todos os aprendizados. Esse o grande mandamento. É no exercício desse aprendizado que podemos entender a ética, como resultando desse novo espaço de relações inaugurado por Ele. Não se constituindo de regras impostas, mas aceitas no âmbito de nossas relações com o outro, a ética nos torna responsáveis pelo que fazemos. Somos conscientes, pois nesse espaço de convivência podemos refletir e pensar sobre as conseqüências de nossos atos. Sem reflexão não há responsabilidade. É disso que a ética nos fala.

Jesus, ao instituir o espaço ético nas relações humanas, não se referiu a poucos entre muitos, mas a uma nova forma de convivência que deveria ser compartilhada por todos os humanos, independentemente da cultura.

O Mestre nos falou de “uma maneira de conviver” no respeito e na aceitação do outro, ou seja, falounos da convivência no amor, espaço legítimo da convivência ética. A ética, concebida como “uma maneira de viver no respeito e aceitação do outro”, instala as bases da convivência democrática. Jesus nos falou de justiça, exortando a solidariedade, pois onde há carência não existe ética. A forma de convivência orientada pela ética, proposta por Jesus, é sustentada pelo amor, fundamento da vida humana, e que nela está presente em qualquer situação.

As relações humanas acontecem sempre a partir de uma base emocional, responsável pela natureza dos espaços relacionais em que realizamos nosso viver. É no emocional que surgem tanto o amigo quanto o inimigo, não na razão ou no racional. Essas considerações podem ser identificadas na alternativa proposta por Jesus para constituirmos espaços relacionais de “aceitação e de respeito” em contraposição à cultura de negação em que vivemos. A convivência ética é uma forma de conviver no amor. Esta é a proposta até agora olvidada. Sua aceitação se responsabilizará por mudanças estruturais que configurarão novas formas de conviver, ajudando-nos a erradicar o egoísmo, decorrente de uma estrutura mental em que o outro não é considerado.(…)

Fica fácil perceber que aos que através das “morais” evangelicas tem dificuldade para controlar nossos impulsos materiais, quando do entendimento das várias faces do ser humano, nos sentimos arrogantes se persistirmos em nossas ações equivocadas.

Aceitar o proximo, entendendo sua moral dentro do contexto ético da Doutrina de Jesus, esta analise fica em segundo plano, nos libertando de uma entre tantas más tendências.

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Sobre Fábio Duarte

@FabioDuarte_BH
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  1. deveria ter mais imagens

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