Fé e Razão

Comumente temos nos deparado com o termo “fé racionalizada” para dizer como o espírita encara a fé; ele a encara pela razão, pela explicação racional, pelos fatos numa conversa permanente com a ciência, sem negá-la, ao contrário, a usa para explicar o mundo e o homem sem negar Deus. Tenho me perguntando até que ponto é válido usar da razão para se chegar a Deus, se há lógica racional no homem para entender Deus, se por acaso se chega à fé pela razão. Estas indagações permearão meus apontamentos sobre fé e razão.

Sempre há razão na fé, mas quando o homem dá um salto de fé não há razão nenhuma nisso, ela sempre ficará atrás, nunca alcançará a fé, pois a fé requer do homem um ato contrário a toda e qualquer razão, não há razão nenhuma em Abraão sacrificar o único filho, só um ato de fé, só um salto dessa grandeza pode explicar isso. Creio que nem mesmo Abraão entendeu pela razão sua atitude, creio que ele deve ter ficado perturbado após quase matar o único filho, mas tornou-se maior, foi noutro estágio que homem algum tenha ido antes, pois foi um ato voluntário, consciente, sem razão, porém cheio de fé, mas não de fé como quisesse algo em troca, fé de acreditar no impossível, de fazer o impossível, de ir ao impossível sem se perguntar, sem se deixar levar pela razão, sem sequer raciocinar se o ato era ilícito ou não; isso pouco importa, Abraão acreditou numa força extra-humana, acreditou que teria que fazer, acreditou, só acreditou no que deveria fazer.

Esse acreditar no fazer é a fé, e ela não comunga com troca, a fé é um ato voluntário movido unicamente pelo fazer. Um ato de fé nada tem nada a ver com um ato de espera, o homem que pratica esse ato de fé não espera nada, se deixa conduzir, simplesmente acredita que precisa fazer, e só. Percebo que confundimos fé como uma ferramenta de troca, se faz tal ação por acreditar numa recompensa divina, isso é pensamento de quem ainda não se desvencilhou de séculos de escuridão na ignorância, basta ver a réstia de luz do conhecimento para clarear o nosso pensamento. Amor, caridade e fé são atos de entrega sem querer nada em troca, a fé é ato de coragem. Todo ato de fé, amor e caridade terá um efeito não só para quem os praticou, mas também para quem os recebeu, toda causa tem um efeito, todo efeito uma causa, mas ato de fé não é troca, o que se faz esperando recompensa já começa falho justamente por esperar, porém terá um efeito do mesmo jeito. Não julguemos os atos de fé, suas intenções, mas tenhamos em mente que o maior ato de fé é aquele que se entrega sem nada esperar, faz só por acreditar.

A razão nunca é cega, é a luz do conhecimento, a dissipação da ignorância, mas não se chega à fé por ela, apenas ela nos guia para tal caminho. Como já salientamos a fé é um salto que se faz onde a razão não alcança, mas foi a razão que encaminhou o homem para tal salto. Portanto, quando se diz que nós espíritas temos uma fé racionalizada, na verdade só estamos a dizer que a razão deve sempre estar preparada para nos encaminhar para fé, ela deve preparar o homem para enfrentar e entender, à luz do conhecimento e da ciência, explicações absurdas e sem sentido sobre Deus, o homem, a vida eterna que as diversas religiões, em evolução, ainda insistem em pregar. Pregação que exclui a razão, que cega, que fomenta o ateísmo cada vez mais presente no mundo, pois para o homem hodierno, com seu conhecimento e evolução, já não é mais possível querer explicar a origem do homem e do mundo pela alegoria da Genesis que muito serviu e nos serve, é sinônimo de beleza, mas é preciso refletir e deixar de lado a leitura ao pé da letra, isso só afasta o homem de nosso tempo e o joga no ateísmo. O Espiritismo veio para explicar o que antes era falado de modo alegórico; há uma máxima na doutrina que diz “o Espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro de todas as religiões”. Essa máxima nos diz que é tempo de refletir, pensar e abandonar a leitura ao pé da letra que nos cega, bem como que não temos pretensão de sermos o único caminho a seguir, só os bárbaros pensam assim e criam religiões fundamentalistas. Todas as religiões estão em evolução e o Espiritismo e a terceira revelação dessa evolução, Deus nos deu a pluralidade e é por meio dela que estamos a evoluir moral e espiritualmente.

Chico Arruda

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