A globalização do espiritismo:

 fluxos do movimento religioso de João de Deus entre a Austrália e o Brasil

 

Cristina Rocha

University of Western Sydney, Australia

 


RESUMO

João de Deus é um médium-curador espírita brasileiro que vem atraindo um número grande de discípulos estrangeiros. Desde o início de 2000, João de Deus tem sido convidado a conduzir eventos de cura em países tão diversos como Alemanha, EUA, Nova Zelândia, Grécia e Peru, entre outros, tendo estado em alguns destes países mais de uma vez. Neste artigo analiso o processo de globalização desse novo movimento religioso, focalizando em particular na Austrália. Demonstro que há uma crescente comunidade transnacional composta de discípulos vivendo entre os dois países, a qual teria intensificado o processo de globalização do espiritismo, até então promovido somente por imigrantes brasileiros. Por fim, analiso o estabelecimento de uma filial do centro de João de Deus na Austrália.

Palavras-chave: Espiritismo, João de Deus, Globalização, trabalho de campo multi-local, comunidades transnacionais.


ABSTRACT

John of God is a Brazilian psychic healer who is attracting a large number of overseas followers. In the last decade, he was invited to conduct healing events in Germany, the US, New Zealand, Greece and Peru, among other countries. He has visited more than once some of these countries. In this article, I analyze the ways in which this new religious movement is being globalized, focusing Australia in particular. I show that there is a growing transnational community of followers living between the healing centre in Brazil and Australia. I argue that this transnational community has intensified the globalization of Spiritism, hitherto carried out mainly by Brazilian migrants. Finally, I analyze the recent establishment of an Australian branch of the Brazilian healing centre.

Key-words: Spiritism, John of God, Globalization, multi-sited fieldwork, transnational communities.


 

Introdução

Estamos num grande auditório de uma cidade dormitório perto de Wellington, a capital da Nova Zelândia, em 2007. Esta é a primeira manhã do tour na Nova Zelândia do médium-curador espírita brasileiro, João de Deus. O apresentador no palco é um norte-americano que mora no Brasil há vinte anos e leva estrangeiros para a cidade de Abadiânia (a 90 quilômetros ao sudeste de Brasília), onde se encontra a Casa de Dom Inácio, o ‘hospital espiritual’ de João de Deus. O norte-americano diz ao público:

O Brasil é o maior país católico do mundo. Lá nós trabalhamos dentro de uma estrutura cristã, mas mesmo no Brasil não pedimos que as pessoas sejam cristãs. Nós vamos rezar. Você ouvirá a Ave Maria e o Pai Nosso. Use estas rezas como algo sagrado, como uma expressão da energia, energia sagrada, como uma maneira de se conectar com essa energia em seu coração. Se você fizer uma objeção intelectual a estas rezas, então tente só respirar profundamente.

A multidão sentada no auditório medita silenciosamente. Logo que o apresentador começa a rezar, todos se levantam prontamente, dão as mãos e rezam com ele. Como no centro de cura de Abadiânia, aqui o dia também começa com rezas. Muitos me dizem que as rezas ajudam a elevar a energia para que João de Deus entre em transe. Assim como no Brasil, um guia de excursão estrangeiro sobe no palco e explica em inglês os procedimentos e o sistema de cura do centro, agindo assim como um tradutor cultural. Neste caso, rezas ao deus católico e à VirgemMaria transformam-se em expressões “de energia sagrada”, ou, como pude constatar em uma outra ocasião, expressões ‘dos princípios masculino e feminino’.

João de Deus (ou John of God, como é conhecido em inglês) é um médium-curador espírita brasileiro que está atraindo um número grande de discípulos estrangeiros. Só em 2006 ele foi convidado a conduzir eventos de cura na Alemanha, nos EUA e na Nova Zelândia. Depois do sucesso de sua excursão de três dias à Nova Zelândia em maio 2006, os organizadores planejaram um evento de quatro dias em março de 2007. Além disso, João de Deus foi convidado para fazer eventos no estado de Nova Iorque em 2007, 2008 e 2009. Há planos para uma viagem à Austrália em 2010. Um total de 2.500 pessoas participaram do evento na Nova Zelândia descrito acima, pagando NZ$ 150 (por volta de R$ 195) por dia.1 O evento aconteceu no prédio da prefeitura, e do outro lado da rua uma marquise foi construída para vender livros, DVDs, cristais, rosários, cartões postais, camisetas e garrafas de água fluidificada estampados com fotos de João de Deus. Todo o trabalho de organização do evento, incluindo explicações, coordernação das filas e venda de lembranças foi feito por voluntários. Além de neozelandeses, um número bastante grande de australianos e alguns norte-americanos participaram do evento, incluindo famílias inteiras com avós, pais e crianças.

Se eventos como este atraem cerca de 2.500 pessoas, a Casa de Dom Inácio em Abadiânia atrai um número muito maior, e que tem crescido consideravelmente após os eventos no exterior. Entre os visitantes, encontram-se guias de excursão, terapeutas alternativos e pessoas enfermas. Muitos deles estão construindo casas e abrindo negócios (pousadas, restaurantes, lojas, cafés e lan houses) perto da Casa. Websites, livros e DVDs mostram João de Deus fazendo cirurgias e explicam suas curas milagrosas.

Neste artigo, analiso a transnacionalização do movimento religioso de João de Deus e, por conseguinte, do espiritismo – a religião francesa que chegou ao Brasil por volta de 1860 e que, ultimamente, tem se disseminado pelo mundo através dos imigrantes brasileiros e seguidores de João de Deus. Sem dúvida, os meios de comunicação e transporte mais rápidos e baratos aceleraram a propagação global deste movimento e do espiritismo. Particularmente, demonstro neste artigo como os intensos fluxos de pessoas, objetos sagrados, idéias e “entidades” que ocorrem entre a Casa de Dom Inácio e a Austrália criam uma comunidade transnacional composta de terapeutas, guias de excursão, pessoas doentes e pessoas em busca de desenvolvimento espiritual. Esta comunidade transnacional é porosa: muitas vezes, inclui seguidores de outros gurus globais tais como Sathya Sai Baba e Mata Amritanandamayi (mais conhecida como Amma ou Ammachi).2 Com efeito, na última década, João de Deus e seu hospital espiritual tornaram-se um pólo significativo no circuito global de gurus e terapeutas alternativos famosos. Entretanto, é importante notar que esta conexão transnacional é criada e apoiada não somente por fluxos concretos de pessoas e objetos, mas por fluxos da energia e de espíritos que, de acordo com seguidores, estão presentes e curam também na Austrália e em outros países do mundo.

Neste sentido, este artigo demonstra como a pesquisa antropológica pode auxiliar nos estudos da globalização. A etnografia, com seu foco na compreensão da vida cotidiana, permite investigar como as idéias que circulam globalmente são localizadas. Nas últimas décadas, os antropólogos têm refletido sobre as implicações da globalização e das comunidades transnacionais no método etnográfico (Clifford, 1997; Gupta & Fergusson, 1997; Marcus & Fisher, 1986). Estas novas tendências questionaram concepções tradicionais do campo antropológico. Não é mais possível estudar comunidades territorialmente fixas, estáveis, localizadas e limitadas. A globalização significa que o relacionamento entre culturas nacionais, grupos étnicos e seus territórios são cada vez mais complexos devido ao impacto de identificações extraterritoriais e fluxos globais. Neste contexto, George Marcus pede uma análise da “circulação de significados, objetos, e de identidades culturais num tempo-espaço difuso” (Marcus, 1998, p. 79). Certamente, os antropólogos devem examinar o impacto de fluxos globais numa localidade, levando em conta que a consciência e as ações de atores sociais incluem uma consciência de um sistema mundial muito mais amplo que o local em que vivem. Clifford observou que, em um mundo cada vez mais interconectado, o etnógrafo e os nativos são viajantes e moradores de um local determinado (Clifford, 1997, p. 2). O mesmo posso dizer de meus informantes, visto que muitos viajavam constantemente entre o Brasil e a Austrália, e participaram de eventos de cura na Nova Zelândia e Nova Iorque. Conseqüentemente, seguindo Marcus (1998), realizei um trabalho de campo multilocal na Nova Zelândia (onde estive presente nos dois eventos de cura), na Austrália (onde desde 2005 participo das sessões de corrente dos discípulos de João de Deus e sessões dos centros espíritas de Sydney), e no Brasil (onde estive em Abadiânia em 2004, 2007 e 2008). Ao todo, fiz 38 entrevistas nos três locais, incluindo moradores brasileiros e estrangeiros de Abadiânia, guias de excursão, doentes, pessoas que desejam desenvolver sua espiritualidade e terapeutas alternativos estrangeiros.

De João de Deus a John of God

De acordo com livros escritos por discípulos do médium, João Teixeira de Faria nasceu em Cachoeira da Fumaça, no estado de Goiás, em 1942. Cresceu na pobreza e teve pouca escolaridade – João Faria é analfabeto. Começou a fazer profecias quando criança e, aos dezesseis anos, teve uma visão que mudou sua vida. Ele conta que, ao banhar-se em um rio, Santa Rita de Cássia apareceu e lhe disse para ir a um centro espírita em Campo Grande, no estado de Mato Grosso do Sul. Afirma que lá, pela primeira vez, incorporou a entidade do rei Salomão e curou muitas pessoas. Esta foi a primeira das mais de trinta entidades que ele diz incorporar atualmente. Vindo de uma família bastante católica, nesse centro foi apresentado à doutrina espírita.

Após três meses no centro, procurou trabalho como alfaiate, profissão de seu pai. Mas a cada vez que a notícia de suas curas milagrosas se espalhava, o médico ou o padre local o denunciava à polícia.3 Esteve na prisão diversas vezes, mas foi solto após curar outros presos, policiais e seus familiares (Cummins & Leffler, 2006; Pellegrino-Estrich, 2002). Finalmente, João Faria economizou o suficiente para seguir a instrução de seus guias espirituais e comprar uma casa pequena em Abadiânia. Trabalhou nessa casa fazendo curas espirituais até 1978, quando mudou-se para o outro lado da cidade após receber um terreno grande de um homem que foi curado.

João de Deus afirma que é médium de espíritos de médicos falecidos, cirurgiões, santos ou de pessoas que foram importantes quando vivas. Afirma ainda que é um médium inconsciente, isto é, não se recorda de seus atos quando sai do transe. Seu centro de cura chama-se Casade Dom Inácio de Loyola, em homenagem ao nobre espanhol queabriu mão de todas suas posses e começou a fazer proselitismo após ter uma visão. Loyola é o fundador da Ordem dos Jesuítas e é uma das entidades que João de Deus incorpora. João de Deus faz parte de um grupo pequeno, porém significativo, de médiuns-curadores espíritas que usam facas da cozinha, tesouras, e bisturis para operar pacientes quando em transe.4

Na última década, João de Deus se tornou John of God quando seu nome e fama se tornaram conhecidos internacionalmente. João vem fazendo eventos de cura em muitos países, sua história foi contada na TV norte-americana (60 Minutes, Discovery Channel, ABC), na TV britânica (BBC Wales) e na australiana (60 Minutes Australia, Channel 9, SBS) entre outras. Muitos destes programas foram colocados por fiéis no site YouTube da Internet, onde também se encontram diversos filmes amadores sobre o médium e suas cirurgias feitos por pessoas que visitaram o centro. Na Internet há também sites de guias de diversos países que anunciam excursões à Abadiânia, além de indicações de livros e DVDs sobre o curador. Muitos dos entrevistados estrangeiros contam que souberam de João de Deus por meio de amigos ou progra mas de TV e que, após este primeiro contato, procurararam mais informação na Internet.

A Casa de Dom Inácio tem um papel ativo neste processo de globalização. De acordo com uma voluntária brasileira que trabalha no centro há dezoito anos, durante uma sessão em que João de Deus incorporou o espírito de Dom Inácio em 1995, a entidade disse que “traria irmãos e irmãs do mundo inteiro ao centro” (Abadiânia, maio 2007). Ela me disse que atualmente a Casa se dedica mais aos estrangeiros. Não por acaso, as entidades têm pedido que imagens e estatuetas de santos católicos sejam removidas para que o centro se torne mais ecumênico. Quando vem ao palco do salão principal e faz uma preleção antes de entrar em transe, João de Deus freqüentemente enfatiza que a Casa é de fato um “hospital espiritual”, e não um centro religioso, estando, assim, aberto a todos. Nas várias ocasiões em que estive lá, havia grupos de judeus, budistas, protestantes, católicos, discípulos de outros gurus e até um rabino de Nova Iorque.

Apesar da abertura a todas as religiões, o espiritismo é a religião enfatizada quando as pessoas perguntam sobre as práticas de cura da Casa. Em entrevistas,5 o médium sempre afirma enfaticamente que não é espírita e sim católico (não obstante seu catolicismo ser extremamente sincrético, combinando devoção de santos, espiritismo kardecista, umbanda e maçonaria). Possivelmente João de Deus não se diz espírita porque os próprios espíritas rejeitam suas cirurgias mediúnicas, associando-as a misticismo, curandeirismo e ao chamado “baixo espiritismo” (Hess, 1991, pp. 126-127). Pelo mesmo motivo, sua passagem pela umbanda também não aparece em nenhuma publicação sobre o médium e nem é comentada na Casa. Entre os anos de 1978 e 1980, João de Deus foi babalorixá de tendas de umbanda no Maranhão e tinha como “santo de cabeça” Dom Inácio de Loyola. Sua insistência nas vestimentas brancas para todos, em tirar os sapatos durante a corrente, tratamentos com banhos de cachoeira e de cristais, os quadros de Ramatis pendurados nas paredes da Casa e a primeira entidade que incorporou (Rei Salomão) atestam a grande influência que a umbanda, particularmente a linha do oriente, exerceu sobre o médium. Apesar de tantas influências, o kardecismo, visto no Brasil como “alto espiritismo” por sua associação com as classes médias, é a única religião mencionada em relação às práticas de cura da Casa de Dom Inácio.

A tradução é outra maneira de abrir o centro para estrangeiros. Os guias de excursão freqüentemente rezam o Pai Nosso e a Ave Maria em sua própria língua depois que estas são proferidas em português no salão principal no começo de cada sessão. Quando estive lá, em algumas semanas, ambas as rezas eram ditas em português, inglês, alemão e francês. Como mencionei anteriormente, esses guias agem também como tradutores culturais, explicando os procedimentos da Casa numa linguagem compreensível a seus clientes, utilizando para isso vários conceitos da Nova Era (Rocha, 2009). Além disso, há tradutores oficiais que trabalham na Casa (geralmente estrangeiros que se mudaram para Abadiânia e aprenderam o português) e que ajudam visitantes estrangeiros a escreverem mensagens para o médium em transe. Uma vez por semana há também uma noite de orientação em inglês para os recém-chegados. Nesta sessão, um norte-americano que trabalha para a Casa (e que fala português fluentemente) explica quem é João de Deus e também os procedimentos e protocolos da Casa.

A instrução para abrir a Casa aos estrangeiros dada por Dom Inácio coincidiu com a chegada em Abadiânia dos australianos Caterina e Robert Pellegrino-Estrich em 1995. Caterina, uma terapeuta alternativa, e seu então marido, um joalheiro, ambos de Sydney, foram os primeiros estrangeiros a chegar à Casa. Logo começaram a trazer grupos da Itália (Caterina é ítalo-australiana), e mais tarde da Austrália e dos EUA. Hoje em dia ambos vivem em Abadiânia. Robert ainda guia excursões, mas agora tem uma construtora que faz casas para vender aos estrangeiros. Ele explica sua mudança de vida com estas palavras:

As entidades disseram-me “você escreverá um livro que trará muitas pessoas aqui”. Doze anos depois meu livro está em dezesseis línguas. Foi uma cilada! As entidades me fizeram comprar um computadorlaptop, fazer um curso de jornalismo na Austrália e depois trouxeram eu e a Caterina ao Brasil. (…) O ocidente começou vir aqui depois que The Miracle Man foi publicado. (palestra em inglês na Casa, maio 2007)

A chegada destes peregrinos estrangeiros estimulou os negócios locais. Tal como em outros centros de peregrinação no mundo, a rua principal que leva à Casa está hoje ladeada por lojas de lembranças e comida. A loja da Casa possui a maior variedade de suvenires. Lá são vendidos água fluidificada, livros em várias línguas de Allan Kardec, Chico Xavier e outros autores espíritas. Sobre o médium, vídeos e DVDs com as operações feitas na semana, além de documentários feitos por profissionais, CDs com música da Casa, cristais “bentos” por João de Deus, jóias feitas com cristais, rosários, triângulos de madeira, camisetas, fotos e pôsteres de João de Deus e das entidades, bem como cartões postais. Estas mercadorias são uma parte importante dos fluxos transnacionais entre Brasil e Austrália. A grande maioria dos visitantes estrangeiros compra estes produtos, particularmente os rosários, cristais e os triângulos, os quais, segundo me disseram, trazem consigo as entidades e, assim, possibilitam que o trabalho de cura continue após a volta ao país de origem. Além disso, muitos entrevistados afirmaram que quando se assiste João de Deus operando um doente no DVD ou se lê um livro sobre ele, as entidades estão “trabalhando” nesta pessoa. Neste sentido, livros e DVDs podem também ser compreendidos como objetos sagrados.

A cidade de Abadiânia tem notado o impacto da chegada dos estrangeiros. Na primeira vez que fui a Abadiânia em 2004, fiquei impressionada com o grande número de pousadas, com as lan houses anunciando banda larga, a loja de cristais e livros espíritas, e o café com um cardápio em inglês (sem tradução para o português) que vendia comida orgânica e sucos de frutas naturais (Rocha, 2006a). Tudo isto seria facilmente encontrado em capitais brasileiras, mas não em Abadiânia, uma cidade de 12 mil habitantes situada em uma área pobre do centro do Brasil. De fato, a economia da cidade é tão fraca, que muitos de seus habitantes tornaram-se imigrantes indocumentados nos EUA e Europa. Três anos mais tarde, em 2007, o impacto da fama de João de Deus era ainda mais visível. Perto da Casa havia então dois cafés e uma pizzaria (todos os três com o cardápio em inglês, sem tradução para o português), um condomínio sendo construído e vendendo apartamentos na planta por US$ 95 mil, uma loja de jóias, também com preços em dólares, uma agência de viagens e várias novas pousadas. Os donos da maioria destes negócios eram estrangeiros que haviam ido a Abadiânia em busca de cura ou crescimento espiritual e acabaram ficando.

Como conseqüência, os preços de terrenos, imóveis e comida subiram consideravelmente. Muitos habitantes locais disseram-me que não estavam contentes com esta inflação de preços. Embora a Casa esteja na periferia da cidade, onde só os mais pobres moravam, atualmente estes habitantes têm vendido seus imóveis ou saído de casas alugadas por não terem recursos para morar lá. Em 2007, uma cabelereira me disse que o preço da terra havia subido seis vezes nos últimos seis anos. Realmente, os preços de venda e aluguel de casas eram mais altos do que preços em bairros de classe média de São Paulo e Rio de Janeiro.

Fluxos transnacionais: espiritismo e discípulos de João de Deus

Em geral, quando estudiosos escrevem sobre transnacionalismo, referem-se à maneira pela qual as comunidades de imigrantes mantêm conexões com o país de origem e de imigração (Glick-Schiller et al., 1995; Smith & Guarnizo, 1998; Portes, 1999; Portes et al., 1999). Nos estudos sobre transnacionalismo e religião, os imigrantes são geralmente uma força central que leva religiões ao novo país (Kumar, 2006; Levitt, 2007; Vásquez & Marquardt, 2003). Em parte, isto ocorre com o espiritismo também. Imigrantes brasileiros nos EUA, Europa, Japão e Austrália estabeleceram centros espíritas freqüentados por brasileiros.6 Se o movimento de João de Deus não tivesse se expandido ao exterior, o espiritismo teria ficado praticamente circunscrito à comunidade imigrante brasileira. Entretanto, embora estas duas comunidades – espíritas brasileiros e discípulos estrangeiros de João de Deus – tenham se desenvolvido separadamente no norte global, esta situação está mudando.

Uma diretora de centros espíritas em Londres e Brighton disse-me, numa entrevista em 2007, que alguns ingleses começaram a freqüentar as sessões após terem visitado a Casa de Dom Inácio. Nos EUA, uma autora de dois livros e diretora de um filme sobre João de Deus e outro sobre o espiritismo, que também é guia de excursão da Casa, disse-me numa entrevista que estava ajudando na tradução de livros espíritas para o centro espírita de Nova Iorque. Na Austrália, alguns seguidores de João de Deus começam a freqüentar os dois centros espíritas de Sydney.7 Estes centros têm sessões noturnas que estudam o espiritismo em inglês, nas quais australianos podem aprender sobre a doutrina. Estas sessões se tornaram possíveis devido à tradução de livros de Allan Kardec e de autores espíritas brasileiros, tais como Chico Xavier e Divaldo Franco, publicados pela Federação Espírita Brasileira e pelo Centro Espírita de Nova Iorque (estabelecido por imigrantes brasileiros mencionado acima, cf.http://www.sgny.org/translations.html ). Num esforço de compreender a cosmologia da Casa de Dom Inácio, muitos desses australianos compram os livros traduzidos em Abadiânia pela Internet ou no centro espírita. Embora os imigrantes brasileiros que freqüentam os centros espíritas não tenham conhecimento de João de Deus, visto que ele não é muito conhecido no Brasil,8 os esforços destes imigrantes para traduzir o material e disseminar o espiritismo no exterior aconteceram numa época em que estrangeiros procuravam centros espíritas após retornarem de Abadiânia. Mais recentemente, a mídia alternativa australiana tem se interessado pelo tema. Uma revista voltada à Nova Era tem publicado artigos sobre o espiritismo, Allan Kardec, Chico Xavier, Brasília, Vale do Amanhecer e João de Deus (Bragdon, 2009, pp. 25-30; Griffiths, 2008/2009, pp. 57-64; Proud, 2008/2009, pp. 65-70).

Em entrevistas, muitos australianos me disseram que estavam contentes por terem encontrado um lugar para estudar a doutrina e para compreenderem melhor os métodos de cura de João de Deus. Desta maneira, esperavam manter a conexão com as entidades da Casa de Dom Inácio. Entretanto, este não é um caminho de mão única. Os seguidores australianos levam também idéias e métodos de cura de João de Deus a estes centros, embora a diretora de um dos centros espíritas de Sydney tenha me afirmado que o trabalho de João de Deus não é estritamente espírita. Uma das razões é que na Casa não há ensino da doutrina e, por conseguinte, os participantes não aprendem que necessitam fazer uma “reforma íntima” para obter o “progresso moral” e evoluir espiritualmente. Segundo ela: “O seu João corta e cura, mas não evangeliza. Então a pessoa vai embora e não aprende nada, não começa a trilhar o caminho.” (Sydney, jan. 2008). A outra razão é que o espiritismo é científico, enquanto “esta coisa de usar branco, não cruzar as pernas, as camas de cristais, é tudo muito místico… A luz da cama é artificial, não vem dos espíritos.” (Sydney, jan. 2008). Apesar destes problemas, ela não colocou empecilhos nem levantou questões com os australianos e brasileiros que freqüentam o centro dizendo: “o espiritismo está abertopara todos”.9

De fato, um australiano me disse que, ao comentar sobre a Casa de Dom Inácio aos brasileiros do centro espírita, os mesmos passaram a freqüentá-la quando visitavam suas famílias no Brasil. Quando não podem ir, mandam fotos dos entes queridos doentes por meio de australianos freqüentadores do centro que vão à Abadiânia. Por outro lado, as visitas anuais de Divaldo Franco a Sydney atraem não só brasileiros (em sua maioria), mas também australianos ligados ao movimento de João de Deus. Neste contexto, os fluxos transnacionais entre Austrália e Brasil fazem um círculo completo. Australianos visitam o Brasil em busca de cura ou crescimento espiritual e, ao voltarem para casa, podem contatar o centro espírita mais próximo e participar de suas atividades. Ao contar suas experiências, incentivam brasileiros a irem à Casa de Dom Inácio.

No entanto, as ligações locais, nacionais e transnacionais entre os discípulos do médium são muito mais fortes do que entre brasileiros e estrangeiros. Como mencionei anteriormente, os objetos sagrados comprados na loja da Casa, os DVDs, os livros espíritas e as camas de cristal10 criam uma rede global crescente de terapeutas, guias e pessoas que estão doentes ou procurando crescimento espiritual. Remédios também fazem parte dos fluxos entre Austrália e a Casa de Dom Inácio. Na Casa há uma farmácia que vende cápsulas de passiflora, receitadas pelo médium em transe. Embora o remédio seja o mesmo para todos os pacientes, acredita-se que cause efeitos diferentes de acordo com as necessidades de cada pessoa. Muitos me disseram que as cápsulas funcionam como veículos para a energia e entidades da Casa, permitindo assim que as pessoas continuem sendo tratadas pelas mesmas quando retornam a seus países de origem. Além disso, as pessoas que não podem ir à Casa enviam fotografias através de um amigo ou de guias de excursão, de modo que a foto possa ser mostrada ao médium. De acordo com as regras da Casa, se o médium em transe fizer um “x” no retrato, é necessário que a pessoa vá à Casa para ser tratada. Todos que mandam fotos recebem uma receita de remédios, que por usa vez são levados ao país de origem pelos amigos ou guias. Esta prática gera um trânsito de fotos em um sentido e de remédios no outro. Discípulos podem mandar fotos muitas vezes ao ano na esperança de receber tratamento constante e manter contato com a energia das entidades. Nos últimos anos, fotos têm sido mandadas como anexos de mensagens eletrônicas e são impressas nas diversas lan houses que existem perto da Casa.

Recentemente, a Casa começou a permitir que estrangeiros comprem e levem camas de cristal para seus países. Por conseguinte, camas de cristal apareceram em muitas cidades do mundo e da Austrália. Muitos entrevistados me disseram que ter uma cama de cristal é uma maneira de sempre estar conectado com as entidades da Casa e continuar o processo de cura. O fato de a maioria das camas de cristal ser colocada em clínicas onde há outras modalidades de terapias alternativas (reiki, vários tipos de massagem, naturopatas) dissemina informações sobre o trabalho mediúnico de João de Deus. Alguns guias são terapeutas e donos de clínicas e fazem propaganda de suas excursões aos clientes. Este tráfego de pessoas, objetos e idéias criou um fenômeno do tipo bola de neve: quanto mais intenso o tráfego, mais pessoas vão à Abadiânia.

Uma comunidade transnacional: vivendo entre Abadiânia e Austrália

Se no início dos estudos sobre o transnacionalismo pensava-se que comunidades transnacionais estariam livres das restrições que as fronteiras das nações-estado impunham, hoje sabemos que práticas transnacionais “ainda que conectem coletividades localizadas em mais de um território nacional, são incorporadas em relações sociais estabelecidas entre pessoas específicas, situadas em localidades reais e em períodos históricos particulares” (Smith & Guarnizo, 1998, p. 11). Com efeito, ao afirmar que os discípulos de João de Deus fazem parte de uma comunidade transnacional, tenho a intenção de demonstrar que os dois locais onde vivem e outros locais pelos quais circulam para encontrar outros membros da comunidade são importantes para a constituição e o desenvolvimento deste movimento religioso. A sensação de pertencer a Abadiânia não faz com que estes discípulos australianos se percebam como brasileiros ou deixem de ser australianos. Uma comunidade transnacional oferece a possibilidade de múltiplas identidades, de encontrar um lar longe do lar (Vertovec, 1999, p. 450). Neste contexto, eles fazem parte de uma “família espiritual”, como uma discípula afirmou.

Desde 2002, quando soube pela primeira vez de João de Deus, tenho visto um número crescente de australianos organizar excursões e peregrinações a Abadiânia, construir casas na cidade, publicar livros e trazer idéias sobre espiritismo para a Austrália. Alguns aprendem português, outros já rezam na nova língua. Muitos vivem entre os dois países, passando parte do ano em Abadiânia.

Martin é um bom exemplo de um membro dessa comunidade transnacional. Cinqüentenário, há alguns anos começara a sentir dores nas costas. Acordou um dia e não conseguiu se mexer. O médico do hospital receitou analgésicos, mas Martin não gostou do tratamento, que deixava-o sonolento e zonzo. Por intermédio de um amigo, conheceu uma mulher que afirmou ter sido curada de câncer de mama na Casa de Dom Inácio. Decidiu, assim, ir ao Brasil. De 2002, quando foi pela primeira vez, a 2006 quando o entrevistei, havia ido seis vezes à Casa. Em sua primeira visita, foi operado invisivelmente (sem corte) e durante a operação sua dor crônica nas costas desapareceu. Na entrevista ele reflete sobre seu desejo de morar em Abadiânia:

Quando eu voltei [à Austrália] eu só queria estar no Brasil. Não queria ter ido embora. Eu queria morar lá. Senti que era minha casa. Eu voltava [à Austrália] e queria estar lá [no Brasil] toda a hora. (…) Não sei o que é… é meu espírito, minha alma, que quer estar lá. Eu só quero viver lá… me sinto saudável lá. (Sydney, nov. 2006)

Nos primeiros anos, Martin morou em Abadiânia por períodos de três meses, mas ultimamente tem permanecido seis meses. No começo alugava casas, mas há dois anos comprou uma casa, que reformou e transformou em dois apartamentos pequenos, morando em um e alugando o outro para uma família local. Explica que a cada vez que vai para lá sente-se melhor. A dor da artrite e das costas sumiram, mas ainda é diabético e tem dor ciática. Acredita que deve permanecer em Abadiânia o maior tempo possível porque “tudo leva tempo, a cura leva tempo”. Afirma ainda que, toda vez que vai a Abadiânia, sente alguma mudança, para melhor ou para pior, o que significa que as entidades estão “trabalhando” nele. Nota que na Casa ficou “mais espiritual, mais conectado com as entidades, e provavelmente com Deus”. Quando está em Sydney, vai ao centro espírita brasileiro nas noites em que a sessão é em inglês, pois considera uma boa maneira de ficar conectado com as entidades e com Deus.

Uma australiana que esteve em Abadiânia diversas vezes e que organiza eventos para angariar fundos para a Casa deu razões mais claras para retornar freqüentemente. Ela me disse:

Se você quiser ter férias… Você pode me oferecer um hotel sete estrelas por um mês ou o Brasil (Abadiânia) por um mês. Não tem comparação! Com certeza eu escolheria o Brasil, porque o resto é tão vazio… Você vai lá e recebe alimento espiritual, você faz amigos, as pessoas lá são iguais. Dá para falar com elas. Se alguém vir uma fada voando na rua, é normal. Você não pensa: “Meu Deus ela está louca”, sabe, maluca. Tudo é tão normal lá. E os presentes que você recebe lá! Olha, lá não há nada que tenha um valor monetário. Se você for a um hotel grande, tudo gira em torno do dinheiro trocando de mãos. Lá tudo é troca espiritual. E não é só isso, você aprende. A sua alma aprende [o que ajuda] a torná-la muito mais rica. Você começa a perceber que quando você morre você não vai levar consigo o seu talão de cheques, você vai levar a sua alma. (Sydney, ago. 2008)

A explicação de não sentir que pertence a grupos de pessoas que não estiveram na Casa de Dom Inácio é típico de comunidades transnacionais. Em referência a imigrantes transnacionais, Glick-Schiller afirma que as “relações multilocais colocam transmigrantes num espaço social e cultural diferente do seus vizinhos, colegas de trabalho e amigos que não compartilham desta experiência” (Glick-Schiller, 2000, p. 1). Assim como Martin, esta mulher sentiu que pertencia à Casa de Dom Inácio e que aquele era um lugar onde tinha a sensação de pertencer a uma comunidade. Ela reforçou estas idéias quando me disse:

Você encontra pessoas [lá]. Você compartilha com elas as estórias mais maravilhosas. E as pessoas são gentis. Há uma generosidade das almas edas relações humanas que você não vê em nenhum outro lugar do mundo. Você vai lá sozinha, e você nunca se sente só nem por um momento. Você aprende com um ambiente tão humilde. Você vê o que algumas pessoas passaram… é uma experiência que te torna muito humilde. Acho que nunca vou poder voltar lá o suficiente. Onde mais no mundo você poderia crescer tanto? (Sydney, ago. 2008)

Como vemos nestes dois exemplos, muitas pessoas mantêm a conexão transnacional porque sentem que a Casa é sua casa espiritual. Tal sensação de pertença pode ser estimulada não somente pela sensação de ser membro de uma comunidade, mas também por João de Deus e pelos trabalhadores da Casa. Por exemplo, quando em transe, João de Deus sempre chama as pessoas que o visitam de “filho” e “filha”, e muitos aceitam esta relação familiar e se referem à entidade (João de Deus incorporado) como “pai”. Algumas pessoas são declaradas pela entidade “filhos da casa”, o que quer dizer que têm uma ligação especial com a Casa. Estes recebem um crachá com sua foto e o título de “filho(a) da Casa”. Quando estive lá em 2008, esta idéia de família espiritual foi enfatizada por um membro da equipe de funcionários que conduz as rezas aos domingos. Ele disse em inglês ao público: “Aqui será sempre sua casa espiritual. Você volta para casa e você quer estar aqui.” Estas palavras são muito semelhantes às de Martin em relação a suas viagens freqüentes.

Tanto o sentimento de estar em um lar espiritual quanto o de pertencer a uma comunidade, que fazem com que australianos voltem sempre à Abadiânia, podem também ser encontrados em outros locais. Beatrice, uma jovem que conheceu João de Deus pela primeira vez no evento da Nova Zelândia em 2006, e que logo em seguida foi a Abadiânia e lá viveu pelos dois anos seguintes, me disse que encontrou uma comunidade num outro local.

Quando voltei à Austrália para estabelecer raízes e fazer dela minha casa, estava procurando comunidade e generosidade, que eram as coisas que estavam sempre comigo na Casa. Não encontrei nenhuma destas coisas aqui [na Austrália]. Tive uma intuição de voltar aos EUA e fazer um cursomatrixenergetics11 em Denver. É onde fiz um curso no começo do ano. Foi maravilhoso. Havia uma sensação intensa de comunidade lá. No fim de semana do curso, nós rimos tanto – eu não ria tanto há muito tempo! É tão bom para a saúde! (Sydney, jul. 2008)

Beatrice notou que, em seu primeiro curso, havia encontrado muitas pessoas que estiveram em Abadiânia. Ela ficou surpresa por ter se sentado para meditar ao lado de uma mulher, que a reconheceu. Beatrice pensou então que a energia de ambos os lugares deveria ser parecida. Soube do matrixenergetics por intermédio de uma guia de excursão americana e autora de um livro sobre João de Deus, que também havia participado de um curso. Assim como o “boca-a-boca” tem sido a forma mais utilizada para divulgar a existência de João de Deus, informações sobre outros curadores, gurus e cursos alternativos é feita também boca-a-boca. Neste sentido, fica claro que esta comunidade transnacional não está fechada, mas tem contato com outras comunidades transnacionais, pois João de Deus entrou no circuito dos gurus que atraem discípulos internacionais. Como mencionei antes, alguns australianos que fazem parte do movimento religioso de João do Deus são também devotos de outros gurus globais, tais como Sai Baba e Amma. Por exemplo, Andrea, uma devota australiana de Sai Baba e que organiza reuniões de corrente semanais em Sydney para discípulos de João e Deus, me disse: “Sai Baba está sempre na Casa. É a mesma energia, a mesma coisa.” Esta comunidade transnacional também não é homogênea. Muitos que vão a Abadiânia não endossam inteiramente a doutrina da Casa. Vão lá como um último recurso, porque a medicina ocidental não lhes deu esperança de cura.

Colocando raízes na Austrália

Estas redes multidirecionais e flexíveis de discípulos, terapeutas alternativos, guias de excursão e doentes que vão à Casa podem ser descritas como um “rizoma”. Appadurai empregou o conceito de rizoma para afirmar que o ocidente é apenas um dos pólos de onde os fluxos culturais globais emanam. Como num rizoma, a economia cultural global não se espalha de um centro particular, mas move-se de uma maneira caótica e imprevisível (Appadurai, 1996, p. 29). Embora a rota principal dos fluxos seja ainda entre Casa de Dom Inácio e de outras nações, este padrão está mudando. Muitos se reúnem em diversas cidades do mundo para “sentar na corrente”, isto é, sentar em meditação como na Casa. Mas, diferentemente de uma meditação, nestas sessões acredita-se que as entidades estejam presentes curando os participantes.

Na Austrália, além das três sessões de Sydney (uma semanal e duas mensais), uma em Perth e duas em Melbourne, há sessões de “corrente” em várias cidadezinhas do interior do estado de New South Wales. Tais sessões são estabelecidas por Henry, um australiano que afirma ter ficado curado de uma lesão séria na coluna originada num acidente. Henry viaja toda semana para uma cidade diferente onde ele organiza sessões em salões de igreja ou da prefeitura local. No início de cada corrente, ele dá um testemunho, explica quem é João de Deus, explica o que é a “corrente”, e mostra documentários sobre o médium. Como em todas as outras reuniões deste tipo, tudo é feito como na Casa: os participantes vestem-se de branco, sentam-se por uma hora de olhos fechados, ouvindo músicas que tocam na Casa (Roberto Carlos, padre Zezinho e outras músicas católicas populares) e rezam às vezes preces em inglês do livreto de preces da Casa (www.friendsofthecasa.com ). O ambiente onde acontece a corrente também é importante. As paredes e o altar são decoradas com fotos de pinturas das entidades (Dom Inácio de Loyola, Rei Salomão, Bezerra de Menezes, Oswaldo Cruz, José Valdivino, Augusto de Almeida, André Luis etc.), de personagens importantes do espiritismo (p. ex. Chico Xavier) e do próprio João de Deus que estão penduradas na Casa. No altar são também colocados cristais, velas e, em alguns casos, um laptop exibindo um DVD de João de Deus fazendo cirurgias mediúnicas. Após a meditação, água fluidificada é servida e, logo em seguida, a sopa de legumes como a que é servida na Casa. Henry me disse que tem sido convidado para estabelecer correntes em várias localidades e, após as reuniões iniciais, os habitantes locais passam a organizar as sessões sozinhos. Henry mantém contato com todas estas localidades através de um boletim de notícias enviado por email.

O mesmo está ocorrendo em diversas cidades dos EUA. Freqüentemente, guias de excursão dão palestras aos grupos da comunidade para disseminar conhecimento sobre João de Deus e a Casa de Dom Inácio. Assim como Henry, nestas palestras são exibidos filmes e os participantes falam sobre suas próprias experiências. De acordo com uma newsletter online de uma guia, sessões de corrente são feitas em Cincinnati, Ohio. O artigo descreve as sessões com estas palavras:

Uma vez que todos estão sentados, nós explicamos que somos uma corrente humana. Que nossos corpos são veículos que as entidades usam para amplificar a energia de cura. Como na Casa, pedimos que as pessoas não cruzem os braços ou as pernas, pois isto bloqueia a corrente. (…) Muitas pessoas tiveram experiências extraordinárias nesta Corrente de Meditação da Comunidade. De fato, agora temos certeza de que a energia e a cura serão consistentemente fortes. Participantes sentem as cirurgias mediúnicas durante a meditação exatamente como na Casa. Nas semanas entre uma sessão e outra, muitas pessoas percebem mudanças de vida relacionadas à cura que pediram durante a corrente. (Sellars, 2007)

Certamente, novos pólos nas redes de fluxos de pessoas, idéias e “energia” do movimento religioso de João de Deus estão sendo criados pelas pessoas que estiveram na Casa. Estas sessões podem funcionar também como um primeiro ponto do contato antes da ida ao Brasil. O número de sessões de corrente tende a crescer. No mesmo artigo, a guia de Cincinnati exorta todos a seguirem o chamado das entidades:

Honre o processo visível e invisível da Casa Dom Inácio e, se você for chamado, confíe no chamado… e traga a corrente de meditação para a sua comunidade com reverência, alegria e benção! As sessões trazem uma experiência maravilhosa grupal que traz cura e profundidade à nossa vida espiritual. (Sellars, 2007)

A estória com que comecei este artigo mostra outro ponto de contato importante para estrangeiros. A presença do médium em eventos de cura internacionais contribui ainda mais para a transnacionalisação do movimento. Muitos entrevistados me disseram que os eventos na Nova Zelândia foram um primeiro passo antes de decidirem ir ao Brasil. Foi lá que sentiram o chamado ou foram requisitados a ir pela “entidade”. Um casal australiano, que após o evento de 2006 passou seis meses Abadiânia com seus três filhos pequenos, sentiu que deveria fazer a viagem após a entidade orientá-los a ir. O marido explicou porque decidiram morar em Abadiânia:

Eu fui por várias razões. Eu sou médium… e sempre senti que iria trabalhar de alguma maneira com cura fazendo algo importante. (…) Por muitos anos pensei que teria um centro espiritual. Pensei: ele é o medium mais poderoso do mundo todo, e eu sou médium, talvez esteja indo lá para aumentar minha mediunidade.

Nas últimas semanas de sua estadia, o casal disse à entidade que gostaria de construir um centro espiritual em sua propriedade. A entidade pediu para ver fotos da propriedade. No dia seguinte, imprimiram as fotos recebidas por mensagem eletrônica numa lan house da cidade e mostraram-nas à entidade:

A entidade me disse através do tradutor: “Vocês vão abrir a Casa Australiana nesta propriedade. Devem levar uma cama de cristal para o centro espiritual para curar as pessoas. Também devem levar cristais femininos e masculinos.” Eu me inclinei para mais perto da entidade, e ele pegou meu colar e disse: “Você compreende o que este pendente quer dizer?” “Representa a unidade das principais religiões do mundo”, minha esposa respondeu. “É assim que seu centro deve ser.” Um dos voluntários da Casa nos disse que ele nos explicaria tudo lá fora. Mais tarde ele nos explicou que os cristais eram uma ligação com as entidades. (Mullumbimbi, jan. 2008)

Mas estes cristais e a cama não eram as únicas coisas que João de Deus pediria que comprassem. Antes de voltarem à Austrália, ele lhes disse para adquirir um cristal de quartzo rosa de 400 quilos a ser colocado na Casa australiana. Em janeiro de 2008 a Casa Australiana foi inaugurada em Mullumbimbi, na costa do leste de Austrália. Desde então ela tem funcionado uma vez por semana com sessões de corrente pela manhã e à tarde, onde tudo é feito exatamente como no Brasil. A cama de cristal foi colocada num quarto ao lado do salão da corrente, para tratamento energético. Em 2007, antes do enorme cristal de quarzto rosa chegar, este discípulo me disse:

Este cristal vai ser a conexão entre as “Casas”. Há o grande cristal da Casa de Dom Inácio no Brasil, há um indo para a Nova Zelândia, um na Austrália e um que deve ir para os EUA. Todos eles vieram do mesmo lugar. É uma conexão mundial. Na nossa última semana em Abadiânia, comprei cem cristais grandes e pequenos. A entidade me disse para dar estes cristais para as pessoas aqui na Austrália para conectá-las com a Casa [no Brasil] e com a Casa australiana. (Sydney, nov. 2007)

Este desenvolvimento mais recente mostra que as ligações transnacionais entre a Casa de Dom Inácio e Austrália tomam uma forma mais concreta. Se antes eram feitas por pessoas que viajavam com freqüência e traziam consigo camas de cristal, rosários, água fluidificada, músicas, DVDs e idéias espíritas, agora tais ligações se solidificam. As sessões de corrente em diversas cidades e o estabelecimento da filial do hospital espiritual brasileiro criaram fluxos dentro da Austrália. Assim, juntamente com a Nova Zelândia e os EUA, a Austrália é um dos pólos centrais na expansão mundial do movimento de João de Deus. Como muitos seguidores afirmaram, o enorme cristal “ancora” a energia da Casa e das entidades em Austrália.

Assim, o que há uma década era um fenômeno pontual e idiossincrático, tornou-se um novo movimento religioso em escala mundial, com filiais no exterior, rituais particulares, devotos, objetos sagrados e um centro de peregrinação. Recentemente, estrangeiros começaram a pedir à entidade/João de Deus para serem, em suas próprias palavras, “batizados no espiritismo”, num ritual público na Casa, que envolve a escolha de padrinhos e a benção da congregação. Ainda que não seja aceito pelo espiritismo Kardecista como tal, é a esta doutrina que seus seguidores imaginam pertencer.

Conclusão

A globalização é geralmente concebida como fluxos irradiando entre metrópoles e periferias (Hannerz, 1996; Robertson, 1995). Em geral, os fluxos entre nações periféricas são ignorados. Este artigo tenta corrigir esta omissão mapeando fluxos de pessoas, objetos, idéias e “energia” entre duas nações periféricas, a Austrália e o Brasil. Minha análise mostra que os fluxos de espiritismo viajam em ambos os sentidos: imigrantes brasileiros estabelecem centros espíritas na Austrália e australianos que vão ao Brasil em busca de cura e de uma ligação maior com a espiritualidade encontram idéias espíritas na Casa de Dom Inácio.

Qualquer avaliação de fluxos globais precisa levar em conta que estes fluxos existem em locais geográficos concretos no ponto de partida/produção e no ponto da chegada/consumo. Neste artigo examinei o impacto da chegada de estrangeiros em Abadiânia e na Casa de Dom Inácio, além do modo como fluxos de espiritismo estão se disseminando na Austrália. Mostrei que em ambos os locais ocorrem mudanças e adaptações. A cidadezinha de Abadiânia e a Casa de Dom Inácio têm mudado consideravelmente desde que a fama de João de Deus tornou-se internacional. Ao mesmo tempo, quando estes estrangeiros retornam a seus países, levam consigo um espiritismo bastante específico, temperado fortemente pelo catolicismo popular e umbanda. Como vimos neste artigo, uma vez de volta a seus países, estas idéias são propagadas por meio de reuniões de corrente semanais, tratamentos de cama de cristal, publicação de livros, produção e exibição de documentários, filmes na Internet, remédios para a família e amigos, organização de eventos para angariar fundos e eventos internacionais com a presença de João de Deus. É importante notar que entidades e energia viajam nas duas direções. Em cada um destes pólos, idéias e objetos são hibridizados com crenças locais, particularmente com conceitos da Nova Era (Rocha, 2009). O que é notável neste caso é que estas idéias entram em contato com idéias de imigrantes brasileiros espíritas. Estes imigrantes visitam a Casa pela primeira vez quando vão ao Brasil. Como num rizoma, estes fluxos se espalham desigualmente, se conectam, se desconectam, e aparecem em novos locais.

Neste contexto, a análise da expansão de um movimento religioso novo tal como o de João de Deus ajuda-nos a ver como a globalização acontece na vida diária das pessoas. Como a nota de Vásquez e Marquardt (2003, p. 3), “uma globalização ancorada e fundamentada”, possibilitada pelo foco da antropologia em locais específicos dentro de uma estrutura global é “o melhor antídoto a leituras hegemônicas da globalização”. O fluxo constante de pessoas entre Abadiânia e Austrália cria uma comunidade transnacional de discípulos de João de Deus. Entretanto, esta comunidade transnacional não é limitada ou homogênea. Ela se cruza com outras comunidades transnacionais alternativas de devotos de outros gurus globais, ao mesmo tempo que alguns de seus membros não endossam inteiramente as crenças da Casa de Dom Inácio, mas vão à Casa em busca de cura.

Finalizo este artigo com um exemplo mais prosaico de conexão transnacional entre a Austrália e a Casa de Dom Inácio. Um australiano, que esteve no Brasil quatro vezes e aos dois eventos da Nova Zelândia, colocou em seu celular uma foto do rei Salomão que tirou na Casa. Ele me contou que utilizava essa foto como papel de parede para estar sempre conectado com as entidades e receber boas energias todas as vezes que está ao telefone.

Notas

1 O primeiro evento atraiu em torno de 3.500 pessoas. Contudo, segundo os organizadores, o aumento do preço da entrada fez com que o público diminuísse no ano seguinte.

2 Para mais informações sobre Sathya Sai Baba, ver Urban (2003) e Hawkins (1999). Sobre Amma, veja-se Warrier (2005).

3 Os Códigos Penais de 1890 e de 1940 foram bastante usados para perseguir fiéis de outras religiões que não o catolicismo na primeira parte século XX. Ambos proibiam práticas não convencionais de cura denominadas decurandeirismo, as quais estavam no centro de religiões afro-brasileiras e do espiritismo. Para uma excelente discussão sobre a implementação destes códigos e a construção de um discurso médico científico no Brasil nos séculos XIX e XX, veja-se Giumbelli (1997, 2003) e Machado (1983).

4 Para uma análise de outros espíritas que fazem cirurgias mediúnicas, cf. Greenfield (1991, 1992a, 1992b).

5 Em outro artigo analiso minha frustrada tentativa de entrevistar o médium no começo de minha pesquisa de campo. Discuto como minha profissão, classe social, gênero, local de origem no Brasil e até mesmo minha nacionalidade funcionaram como obstáculos na minha primeira tentativa de acesso ao médium (Rocha, 2008).

6 Para uma análise bastante preliminar sobre a transnacionalização do espiritismo, cf. Lewgoy (2008).

7 Para uma análise do papel da religião espírita e evangélica na comunidade de imigrantes brasileiros em Sydney, cf. Rocha (2006b).

8 Pouco foi publicado sobre João de Deus na imprensa brasileira. Entretanto, dada sua fama global, algumas reportagens começaram a aparecer. A maioria dos jornalistas demonstra seu desconcerto com o enorme fluxo de estrangeiros atraídos por um médium analfabeto que mora numa região do Brasil onde a modernidade parece não ter chegado. Em junho de 2006, uma reportagem apareceu na revista Trip, na qual o jornalista chama Abadiânia de “Gringolândia” (Verissimo, 2006). Em agosto de 2007, a revista Época publicou uma longa reportagem intitulada “O Curandeiro Globalizado” (Zorzanelli, 2007). Como vimos acima, “curandeiro” é o termo usado pelos códigos penais que deram base à perseguição do espiritismo.

Em 2008, a revista Galileu deu reportagem de capa ao médium (Nogueira, 2008). Em janeiro de 2009, a colunista da Folha de S. Paulo, Barbara Gancia, escreveu que nunca havia ouvido falar de João de Deus e que, ao chegar em Abadiânia, “Não imaginava que um povoado com cerca de 10 mil habitantes nos cafundós de Goiás pudesse ser um destino internacional tão requisitado” (Gancia, 2009), novamente colocando a modernidade (estrangeiros) como antítese da tradição(o povoado).

9 Ver Hess (1991, pp. 125-152) e Greenfield (1992b) para análises da rejeição de cirurgias mediúnicas por intelectuais espíritas brasileiros.

10 Camas de cristal são uma espécie de cromoterapia que utiliza uma haste com sete braços com lâmpadas coloridas nas pontas, colocadas atrás de um cristal de quartzo facetado. Cada braço é colocado acima de um chacra (as cores das lâmpadas correspondem às cores dos chacras) enquanto a pessoa se deita numa cama. Na Casa há cinco camas de cristal e a entidade recomenda banhos de cristal a algumas pessoas.

11 Matrixenergetics foi estabelecido em 2004 por Richard Bartlett, um quiropata norte-americano. Atualmente vende seus livros de cura e promove seus workshops pelos EUA. Em seu website, lemos que “o matrixenergetics é um sistema completo de cura, de autocura e de transformação. Este paradigma inteiramente novo utiliza os princípios da ciência, da energia sutil, e da física quântica, acoplados com o poder incrível da imaginação ativa e da intenção focalizada para produzir efeitos físicos que freqüentemente desafiam explicações racionais” (http://www.matrixenergetics.com ).

 

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Recebido em fevereiro de 2009.
Aceito em agosto de 2009.

©  2012  Revista de Antropologia

Departamento de Antropologia FFLCH/USP
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Cidade Universitária
05508-900 São Paulo SP Brazil

Percebam que mesmo trabalhos sérios usam o  termo “espiritismo” de maneira genérica.

Sobre Fábio Duarte

@FabioDuarte_BH
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Uma resposta para A globalização do espiritismo:

  1. São essas pessoas, que muitos desacreditam, porque não existe fé, ou porque suas mentes ainda estão baseadas em dogmas, em conceitos que sequer procuram pesquisar ficando apenas naquilo que alguns dizem, pregam, em levros que escritos pelo homem, cada um com seu interesse de se propagar quer na prepotência, vaidade, orgulho ou mesmo apenas pelo dinheiro.
    Como este, Chico, Irmã Dulce, e muitos outros que até desconhecemos porque sua humildade não lhes permite que sejam divulgados seus trabalhos, seu amor, sua caridade pelos seus semelhantes.
    Isso é seguir o ensinamento do Pai Criador por meio de seu filho que aqui esteve ensinando-nos o verdadeiro amor, a verdadeira caridade, o perdão sem nada pedir em troca.
    Tomara que nós possamos ainda do lado de cá, aprender com esses exemplos e nos modificarmos sabendo que tudo aqui é passageiro e só levaremos para o outro lado, as nossas ações benéficas, nossas ações de amor ao próximo, nosso amor a tudo que o Pai criador nos legou para que nesta Orbe vivenciássemos seu amor por nós quer no ar, nas estrelas, no mar, nos rios, nos pássaros, nas flores, em fim tudo perfeito que nós não aprendemos ainda a preservar e sim a destruir tudo.

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