A Harmonia Natural ( Visão Jurídico-Espírita )

 

Por Nilton José Sávio*

Finalmente Creonte, o rei, descobriu a transgressora de seu édito. Uma questão: “E ousaste, então, tripudiar sobre estas leis?!”, então a contraposição entre a lei dos deuses e a do rei: “É que essa não foi Zeus que as promulgou, nem a justiça… E eu entendi que os teus éditos não tinham tal poder, que um mortal pudesse sobrelevar os preceitos, não escritos nem de ontem, mas vigoram sempre, e ninguém sabe quando surgiram.” [SOFOCLES. Antígona. Maria Helena da Rocha Pereira (trad.). 6° Ed. Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian. s/d.].

Dois planos: a lei divina e a humana. Aquela imutável, justa, eterna, esta permeada de injustiças, mutável. Um movimento de análise: considerar as relações que o homem estabelece com as leis nesse plano dual, deslizando entre um e outro.

Um raciocínio corrente: se Deus é a perfeição absoluta e estabeleceu leis para reger a criação, estas devem ser a expressão máxima da justiça, pois divinas, portanto, lei superior a qualquer uma formulada por seres não justos. Essa ideia está viva na tradição, muito antes do Cristianismo.

Ao olhar os fenômenos naturais é possível descobrir suas razões, descrevê-las. No entanto, os seres humanos trazem consigo a ideia, desde muito tempo, de que Deus é a expressão máxima da justiça e age não somente no mundo fenomênico, mas em nossas relações sociais ou mesmo em nós. Ilustram nossa assertiva expressões populares, tais como, “Se deus quiser”, “Nada é por Acaso” (expressão muito usada por espíritas, mas não propriedade única destes) ou “Se for da vontade de deus”. Deus estaria vivo do átomo às relações entre homens.

A grande questão – e neste ponto a doutrina espírita traz grandes contribuições: o homem entende que a suprema justiça nos rege plenamente, entretanto, o mundo humano, injusto, diz o oposto, daí o conflito que emerge. Não é possível evidenciar quais são os mecanismos dessa justiça.

Há apenas forte “convicção”, o mundo aparece-nos essencialmente injusto. Destarte, como entender essa suprema justiça? A resposta a tal pergunta são apenas frases, aquelas frases, nada de razões. O uso de frases invocando a suprema justiça de Deus encontra suas primeiras raízes na velha lei de Talião, expressa na proposição “olho por olho dente por dente”, invocando aquele senhor dos exércitos. É a nossa vontade violenta de evitar a contrariedade: se participo de alguma contenda, se meu partido perde, se pessoas que não gosto elevam-se, eu afirmo:

“deus está vendo”, ou seja, “Vocês que me contrariam aguardem, pois deus irá acertar as contas com vocês”. Pouco importa a justiça aqui, importa o fato de não ser atendido, é a criança que chora. Por outro lado, há a dominação, é excelente para os alienantes que os alienados mesmo sofrendo injustiças se resignem. Resignação não é alienar-se, não é acovardar-se, é saber causas, e não simplesmente dizer “nada é por acaso” (como pretendem alguns romances espíritas, ou melhor, palavras encadernadas para vender). Desse modo, com semelhantes posturas, apenas continuamos reproduzindo injustiças: usa-se deus e uma ideia de justiça suprema para manter as injustiças, grande contradição! Mesmo assim “não esqueçamos”, dirão, “deus é Justo”. Enfim, é possível entender essa ação divina dos átomos ao homem, dos fenômenos à moral? Sem cairmos em instrumentos de dominação, projeções de vontades não concretizadas, contrassensos, e, sobretudo, atingirmos a real possibilidade de ciência?

Aqueles que observaram como O Livro dos Espíritos está estruturado podem constatar a divisão da obra em quatro partes (livros): (I) Das causas primeiras (II) Mundo Espírita ou dos Espíritos (III) Leis Morais (IV) Esperanças e Consolações. Dessas quatro partes nos interessa a terceira, as leis morais: existe uma lei natural, criação divina, perfeita, e esta se divide em leis físicas (mundo fenomênico) e aquelas que “[…] concernem especialmente ao homem em si mesmo e suas relações com Deus e com seus semelhantes. Elas compreendem as regras da vida do corpo assim como da vida da alma: são estas as leis morais” (Livro dos Espíritos. Nota à questão 617).

Esta divisão das leis naturais, talvez, não dissesse muito em face da tradição. O ponto arquimediano, e então inovador, é a estrutura argumentativa empreendida para vencer a tensão entre a ideia de suprema lei justa e a humanidade injusta. Somando ainda a possibilidade de racionalização dessa lei moral divina. Saímos da tensão não por dividirmos a lei natural em dois, e sim por que racionalizamo-la, concebendo a possibilidade de ciência, em um domínio dito, até então, não científico. É fundamental sinalizarmos que não existe aqui intenção de incutir nas massas aquela resignação covarde (atenção leitores do pentateuco kardequiano!).

Relacionar a justiça de Deus às leis é justamente abrir caminhos para a ciência e diminuí-las para a religião desreligiosa. Agora é possível entender por que a justiça suprema é realmente justa. O princípio de reencarnação resolve grandes problemas em torno da suprema justiça injusta, bem como permite entender e testificar a existências dessas leis morais. Entretanto, não é a simples pesquisa para comprovação da reencarnação que consegue demostrar a verdadeira justiça. Pois, se somente fosse necessário isso, transferimos nossas questões para outro plano, o que importa considerar é a harmonia natural que a reencarnação revela. Desse modo, quando dizemos “nada é por acaso” com os olhos na reencarnação, na grande maioria das vezes, não fazemos nada mais do que aqueles que pensam na resignação covarde, no deus dos exércitos ou na alienação: qual será o valor de sabermos que José matou Maria anteriormente, e hoje José foi morto em um acidente em consequência daquele ato? Essa é a dinâmica de certos romances espíritas, cria-se um plano de tragédias e malogros, depois, ao fim, tudo é explica com a reencarnação. Não há ciência, e sim, qualquer coisa entre aqueles que gostam de lama e do martírio, a culpa ainda nos persegue! O movimento é anterior, essencial, trata-se da harmonia natural, na razão direta entre as leis morais e o mundo humano. Por que morrer, por que José deve padecer algo? É um processo formativo ou punitivo? A justiça está em sofrer o que se fez ou aprender a entender o bom, o belo, o justo, etc? O que é a harmonia natural que nos rege? Deus, talvez, está vivo ao nosso lado, e distante dos pensamentos que querem trazê-lo para perto: “deus é mais”, “deus é fiel”, “Se deus quiser”, “Nada é por acaso” etc.

Transportar o entendimento das leis morais para um plano realmente capaz de ciência – não um símile de ciência. Pensar leis morais na base harmônica natural – em que a reencarnação é uma de suas manifestações – nos ilumina inúmeros caminhos para a razão, superiores ao da moeda corrente da “simples causalidade”. Contemplar a harmonia, as leis de Deus, e inseri-las no mundo de relações constituído na e pela história, não circunstancialmente pensado, mas segundo a linha divina que liga a história. Sendo os seres humanos espíritos criadores e recriadores de si mesmos e do mundo, seres em processo contínuo de formação, na história que abarca os mundos, os séculos, as eras, Deus. E tal como o sábio que observa o movimento dos astros no *zimbório infinito, olhemos os horizontes maiores do ser e dos seres humanos em sociedade à procura do justo real. E ao fim, o rei, Creonte, conscientiza-se, ainda a lei dos deuses.

*Sobre o Autor: estudante de filosofia (Licenciatura Plena) na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), diretor do Departamento de Mocidade da USE intermunicipal Araraquara (DM/USE-I) e integrante do Núcleo Araraquara da AJE-SP.
Contato: nilton-savio@hotmail.com

Fonte: Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo
http://www.ajesaopaulo.com.br/boletim/outubro_2012/default.asp

Anúncios
Esse post foi publicado em Artigos Diversos. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s