Entrevista com DORA INCONTRI

Pesquisadora, escritora, conferencista e
musicista, Dora Incontri canta a música
intitulada Swing Low Sweet Charriot, melodia
dos negros americanos (negro espiritual) que fala
de uma doce carruagem que os leva de volta para
casa (o além). Momento vivido durante visita a
Belo Horizonte em janeiro de 2005, ocasião em
que foi entrevistada para O Espírita Mineiro.

As religiões não têm sido capazes de fazer com que os homens vivam em paz, mantendo em suas doutrinas posições rígidas. O que precisa ser feito para que o registro de João, o bem amado, quando relatou Jesus dizendo: “(…) eu sou o caminho, a verdade e a vida”(1) seja melhor entendido?

Gosto muito desse assunto e foi uma das preocupações do próprio Kardec. O Espiritismo tem a chave para a paz, a tolerância e o diálogo. O Espiritismo primeiro nos desencanta, nos desmitifica de determinados aspectos abusivos das religiões, que são os dogmas, os fanatismos, os irracionalismos.

Isso que criou nas religiões os entraves à prática da verdadeira moral. Mas as religiões têm um fundo ético positivo, o que ocorre, por exemplo, com o Budismo, o Islamismo, o Confucionismo, o Induismo… Em todas as religiões e no Cristianismo também há princípios éticos elevados para a humanidade que, se fossem seguidos pelos seus adeptos, tornariam o Mundo bem melhor.

As religiões também tiveram – e ainda os têm – abusos de poder, fanatismos, institucionalismos e irracionalismos. Por isso, Kardec deu excelente contribuição ao dizer que nós não podemos dizer que fora da Igreja não há salvação ou fora do Espiritismo não há salvação. Ele disse que fora da caridade não haveria salvação, elegendo como princípio máximo da conduta humana a ética do amor, que qualquer criatura pode praticar, sendo mulçumana, indu, budista, espírita, católica ou protestante. Qualquer pessoa pode praticar esta ética que Kardec indicou que é exatamente a ética do Cristo.

Então, a mensagem de Jesus é uma mensagem universalista de amor ao próximo, que pode tocar todas as criaturas, independente dos seus dogmas particulares. O Espiritismo vem reviver essa mensagem. Entretanto, precisamos vencer essas fronteiras da intolerância, dos fanatismos, dos fundamentalismos, para realmente vivenciar uma ética universal.

Que linhas do trabalho missionário de Kardec ficaram mais evidentes em suas pesquisas?

Uma grande contribuição sua foi a tarefa do educador. Porque, antes dele se dedicar ao Espiritismo, foi um educador de grande projeção na França. Lidou com crianças, escreveu textos importantes que até hoje têm atualidade no campo da educação – alguns deles eu já traduzi para o português e foram publicados no livro “Textos Pedagógicos” que, agora, está sendo relançado ampliadamente com outros textos ainda inéditos.

Kardec deu uma contribuição importante nessa área como discípulo de Pestalozzi. Mas foi só um trabalho preparatório para sua missão mais alta, que viria ocorrer dentro do Espiritismo, no qual ele exerceu, acima de tudo, uma função de educador da humanidade.

Não mais só o educador das crianças francesas do seu tempo, mas com o mérito de educador da humanidade.

O Espiritismo é uma proposta de educação do espírito, para alavancar a evolução humana. Essa missão que Kardec tomou nas mãos é justamente a de propor um novo rumo para a evolução, de aperfeiçoar o ser humano, sendo, portanto, a sua tarefa eminentemente educativa. Mas há algo que tenho aprendido nas minhas pesquisas – e enfatizei principalmente no livro que escrevi, intitulado: “Para entender Allan Kardec”. Kardec inaugurou um novo método de abordagem da realidade.

O Espiritismo não é apenas uma revelação dos espíritos. É uma nova forma de entender o mundo. Quem propôs essa metodologia nova do conhecimento foi o próprio Kardec. E essa foi uma contribuição pessoal do sábio, do espírito admirável que ele é. O que significa essa nova abordagem da realidade? É justamente a abolição das fronteiras que sempre existiram, que até hoje existem no mundo contemporâneo, entre a ciência, a filosofia e a religião.

Quer dizer, a ciência materialista, reducionista, dogmática, apenas atendo-se aos fatos materiais; a religião exclusivista, intolerante, institucional, muitas vezes rejeitando as contribuições da ciência e a filosofia também fechada em si mesma, muitas vezes criando sistemas muito herméticos, inacessíveis, que pouca contribuição real pode dar ao futuro da
humanidade. Kardec rompeu essas fronteiras fazendo uma crítica da ciência materialista, da intolerância religiosa, das elucubrações vazias de algumas correntes, tornando a filosofia acessível, mais popular, mais didática, mais fincada na realidade; ampliando as fronteiras da ciência, não apenas com os fatos materiais, mas aplicando o método experimental para a pesquisa do espírito; fazendo a religião perder seu caráter de fanatismo, de institucionalismo, centrandose propriamente na parte ética, na moral que é o mais importante que as religiões trazem, da ligação direta do homem com Deus, sem necessidade de intermediações.

É uma área colaborando com a outra. A racionalidade filosófica ajudando a religião a não se perder no fanatismo. A pesquisa científica ajudando a religião a não se perder no misticismo, mas ao mesmo tempo a religião ajudando a ciência a não ficar materialista, a não ficar reducionista, e ao mesmo tempo iluminando a filosofia para que esta não se perca
no niilismo, no materialismo. Enfim, uma forma de conhecer ajudando a outra para que o conhecimento seja integral, seja pleno.

Outra contribuição que Kardec deu, muito importante, foi no resgate do Cristianismo. A mensagem de Jesus é uma mensagem de amor universal, de fraternidade, e ficou perdida no institucionalismo, na criação de religiões que usaram do poder, da força, da violência, do autoritarismo, enfim, de toda essa história que nós conhecemos a partir do ano 300 dC, com Constantino, quando aquele imperador tornou a igreja católica herdeira do Império Romano. A partir daí, de perseguido a perseguidor, o Cristianismo entrou por uma via que nós sabemos, historicamente, ter sido extremamente contrária à mensagem de Jesus. 

Kardec resgatou a figura do Cristo desmitificada, não mais como Deus, mas como espírito puro, evoluído, pedagogo da humanidade, trazendo uma proposta de educação, ou seja, ele resgata a idéia do Cristianismo não mais como salvação do pecado, mas como a educação do espírito para a perfeição.

Que fatos da vida de Kardec evidenciam mais claramente seu espírito pesquisador e crítico?

Há vários. Nós podemos citar, em primeiro lugar, os próprios textos pedagógicos que ele escreveu. Numa abordagem que seria de vanguarda, ele queria tornar a própria educação uma ciência de pesquisa. Coisa que não havia na época, no início do século XIX. Apenas cem anos depois teríamos a educação constituída como uma ciência de pesquisa, justamento com a escola da Suíca, de Claparède(2), de Piaget(3), que fizeram da educação uma pesquisa científica. Outro fato que podemos citar é quando ele vai propriamente abordar o Espiritismo. O distanciamento que ele toma da questão, a abordagem lúcida, serena, de muita pesquisa, de muita observação, que revela esse espírito de pesquisa. E nós podemos citar também o seguinte: que, antes dele lidar com o Espiritismo, durante trinta anos pesquisou sobre o magnetismo. Quer dizer, o magnetismo, que era uma ciência também experimental, proposta pelo médico Mesmer(4), que é uma forma de tratamento através das forças magnéticas etc, era uma medicina experimental, era uma pesquisa feita por vários médicos da época. Ou seja, lógico que a ciência oficial materialista rejeitava essa forma de pesquisa, mas tratava-se já de algo que envolvia o método experimental e a transcendência. Quer dizer, não era uma pesquisa que tinha por objeto apenas os fatos materiais. Já havia aí um princípio da Ciência Espírita, que é o método experimental aplicada ao objeto espiritual.

Durante a sua tese de mestrado na USP, com o tema História e Filosofia da Educação, o que mais a impressionou na figura de Pestalozzi(5)?

De todos os educadores que estudamos, ele foi o que mais enfatizou a idéia do amor pedagógico, da necessidade da relação profunda, afetiva, que deve existir entre o educador e o educando. Mas ele não enfatizou isso apenas teoricamente. Era uma pessoa muito afetiva, acolhedora. Há, por exemplo, treze volumes de cartas que ele mandou para amigos, discípulos, familiares, grandes celebridades da Europa etc – tenho várias dessas cartas – e você vê nelas o quanto ele era afetivo, emotivo. Pessoa extremamente afetiva, as crianças em Yverdon(6) o chamavam de pai. Para ele, a escola não devia ser um lugar frio, distante, mas um local onde se reproduzisse o ambiente familiar. Pestalozzi impressiona muito por esse aspecto pedagógico. Também pelas suas intuições. Ele era uma pessoa extremamente
intuitiva e, em todas as suas obras – mais de quarenta volumes, dentro desses volumes vários títulos – há muitos clarões, muitas intuições interessantes. Quando lemos hoje, com a visão espírita, entendemos como ele tinha intuições profundas.

A escolha da Educação Espírita para a sua tese de doutorado na USP encontrou resistência no conservadorismo de alguns setores dos meios acadêmicos?

Encontrou. Tanto que demorei cinco anos para entrar, para fazer essa tese. Eu já estava quase desistindo. Só insisti porque os espíritos bateram pé, dizendo que eu precisava realizar esta tarefa. Hoje, vejo realmente que foi muito importante ter seguido a orientação  deles, mas, várias vezes, pensei em desistir. E devo dizer que a maior resistência encontrada foi entre os próprios espíritas. Pedi apoio a alguns deles na Unicamp, na Usp, na Puc, mas se mantiveram tímidos. Quem me apoiou foi um católico, que é especialista em São Tomás de Aquino, e uma israelita, adepta da religião judaica, que foi minha orientadora e trabalha com as minorias étnicas, religiosas etc. Ela encampou essa idéia e disse: você tem direito, como espírita, de defender uma idéia espírita dentro da universidade, porque todos têm direito a ter a sua representatividade. Ela patrocinou essa idéia e foi minha orientadora. Depois que eu entrei, que estava lá dentro, não houve mais objeções. Fui financiada pelo CNPQ para fazer a pesquisa. Nunca tive um relatório obstruído, nem questionado, e todo o trabalho se desenvolveu normalmente. Foi tudo feito com muito cuidado, muita pesquisa, muita fundamentação e, na própria defesa da tese, estavam presentes dois católicos, dois espíritas e a orientadora, de origem judaica. O clima era de muita cordialidade, de muita emoção, e foi muito interessante. Todos ficaram tocados, porque todos tinham uma religiosidade. Não havia nenhum materialista na banca. Tínhamos conseguido, falando de Espiritismo, com que alguns não concordavam, levar a discussão de determinados temas para a universidade, temas esses banidos de lá, como, por exemplo, Deus, espírito, alma, etc.

(1) João, 14:6
 
(2) Édouard Claparède (1873–1940), psicólogo suiço que conduziu pesquisas exploratórias nos campos da psicologia infantil e psicologia educacional.
 
(3) Jean Piaget, (1896–1980) especialista em psicologia evolutiva e epistemologia genética, filósofo e educador suíço.
(4) Franz Anton Mesmer (1733–1815) foi o médico austríaco criador da teoria do magnetismo animal conhecido
pelo nome de mesmerismo.
(5) Johann Heinrich Pestalozzi (1746 – 1827) – Pestalozzi, mestre de Kardec, propunha que a educação ttivesse foco no desenvolvimento integral “da mente, do coração e das mãos”.
(6) Local, na Suíça, onde Pestalozzi se projetou na busca de uma escola que deveria ser não só uma extensão do lar, como inspirar-se no ambiente familiar, para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto.
 
 
Fonte: O Espírita – União Espírita Mineira Maio/Junho – 2005
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Sobre Fábio Duarte

@FabioDuarte_BH
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